sexta-feira, 4 de junho de 2010

Aptidão


Sabe você o que pode sublimar a sanha? Tranquilize-se, caso a resposta seja um tonitruante não! Pois, em respeito à verdade, sendo o primeiro valor entorpecido pelo relativismo registrado dos vícios e das virtudes, ninguém o sabe. Forçoso dizer, ninguém que sofra da mesma ascendência biliosa que me forma. A natureza inexorável da fúria que reclama inopinada!
Se, apenas por um átimo, nada além disto, soubéssemos existir tal conhecimento, mesmo descansando sob sombras d’algum consciente, o furacão desolador da esperança já haveria de nos ter manifestado seus irreconhecíveis sintomas. Mas, se o são, como sabe-los? Cruciante armadilha filosófica a nos assombrar durante todos estes anos onde a matemática se perde na tentativa de mostrar sua ciência, e apenas o saber originado da mesma espécie fornecer-nos-ia o alívio a inicial pergunta. Nós, filhos da sofreguidão, não o temos. Só conjeturamo-lo. Assim, a sensação da resposta, ou melhor, das respostas, é inescrutável ao preço que costuma cobrar a carne, o sangue envolto na dor da avidez.
Sobra-nos? Dentes que se querem presas. Unhas que reclamam-se garras. Vísceras que proclamam-se valhacouto iniludível. Uivos que se afirmam trovões, arautos do mal inescapável. E, para questão primeira, nada. E esta falta recrudesce as afirmativas do inicio deste parágrafo. E legaliza, sem apelações, aquilo delas resulta. Viceja assim a vontade imiscuída no cerne da necessidade, que vive a alimentar o mecanismo perpétuo a fustigar as entranhas. Neste momento intensificamos o perquirir à pergunta que abre este breve relato. Mas, no confronto do recrescer, a dúvida enfraquece na sombra do desejo, na força da vontade. Aquele que não tergiversa na hora da refeição. No momento de mastigar e engolir. Então, sobra-nos? Aceitar aquilo para que somos aptos, onde a seleção nos quis.
Correm, bufam, gritam, choram. Encalistra-me o desespero irrefreável. A completa ausência de espírito. Só o medo dirige-os. E este está sempre perdido em sua direção. Conquanto necessário, faz vítimas estúpidas, caso não veja que pede, ele, por enfrentamentos. E nunca o fazem. Sabe, alguém, o que pode sublimar a sanha? Ninguem escuta. As pernas em rápido e desordenado deslocamento é a resposta. Errada. Atiça-me, só. Nada mais. O que fazer? Resolvo este conflito da única, até agora, maneira que sei. Que conheço. Ataco. Rasgo e mordo. Mordo e rasgo. Mastigo e engulo. Sugo. Uivo. E ouço. Sempre. A mesma ladainha. Esqueço a pergunta. Estou tranqüilo com a resposta.

terça-feira, 16 de março de 2010

Uma breve história no tempo. No tempo de um gigante entre nós.

Há um mês, um gigante da Litfan nacional nos deixou. Conquanto sua ida tenha nos deixado orfãos de uma das mais profícuas penas da literatura fantástica (e da companhia de um ser humano sem igual), seu legado literário, na forma do gênero conto, encontra-se no panteão onde, sem limites, residem os monstros sagrados desta vertente. Imagino os colóquios travados entre Edgar, Howard e Henry, na academia dos mestres. E sou atingido por uma verve impronunciável. Posto aqui, neste pequeno endereço, uma obra sombria, carregada de significados sobre a vida e sua pequenez diante do inevitável fim e do imaginário que ele suscita. Sem mais, senhoras e senhores, encarem

O Poço

Henry Evaristo


Chovia a cântaros na noite em que joguei minha esposa nas águas frias e escuras do poço de minha mansão. O vento sinistro da tormenta açoitava como um gélido flagelo minhas roupas encharcadas enquanto eu a ouvia agonizar afogando-se em algum ponto em que as trevas já impossibilitavam a visão.

Depois entrei aliviado em minha residência e tudo parecia ter adquirido uma coloração diferente do cinzento ao qual eu estava já tão habituado. Olhei para todos os lados e aquele novo colorido me fez lembrar os tempos de infância e de liberdade. As lágrimas escorreram por meu rosto onde um inelutável sorriso se estampara sem que nem ao menos pudesse percebê-lo antes de deparar-me, inesperadamente surpreso, com o imenso espelho na parede esquerda da sala. Ali, pela primeira vez em vinte anos, vi a minha própria imagem refletida sem que sobre ela restasse a sombra medonha da criatura odiosa com quem eu havia contraído um matrimônio peçonhento e trágico. Felizmente a esta tragédia eu havia dado um ponto final esta noite! Mais tarde, já alta madrugada, subi ao quarto principal; deitei-me na imensa cama de casal e não pude conter as gargalhadas por senti-la tão espaçosa, tão definitivamente minha!!! Era exatamente isso que eu ansiara por tanto tempo: espaço, privacidade, silêncio. Oh, o silêncio era tão precioso para mim! E aquela bruxa horrenda nunca o respeitara. Agora respeita! Coberta que está, por litros e litros de água fria e escura, no fundo do poço onde a joguei, pois, com exceção do leve ruído dos galhos das árvores roçando as paredes do lado de fora da casa, movidos pela força do vento, tudo mais é quietude.

Quando despertei mais tarde nem mesmo percebera que adormecera e, ao olhar em meu relógio de pulso, descobri que passava um pouco das três da manhã. De início fiquei aturdido tentando imaginar o que me arrancara de um sono reconfortante como há muito não tinha. Depois percebi que o vento lá fora ainda estava furioso, pois os fortes galhos das árvores ao redor da casa continuavam a arranhar e forçar portas e paredes.

Decidi levantar-me e ir até a janela desfrutar um pouco da paisagem de minha propriedade sob aquela chuva torrencial, pois paisagens noturnas, sob tormenta ou nevoeiro, sempre me agradaram com seus aspectos lúgubres. Ao abrir as cortinas sobre a vidraça que era a janela de meu quarto, no entanto, tive uma enorme e perturbadora surpresa, pois, apesar de ainda estar ouvindo o uivo do vento e o arranhar dos galhos nas paredes, toda a chuva já passara e o céu estava límpido e carregado de estrelas.

No entanto, os barulhos continuavam e de repente assumiram um novo aspecto. Agora que a convicção da precipitação como causadora não mais existia, minha mente abrira um novo leque de possibilidades e o gemido que ouvia não era mais do vento e tampouco os arranhões nas paredes estavam do lado de FORA da casa. Pelo contrário: pareciam vir subindo rapidamente as escadas para o segundo andar onde eu estava.

Fiquei parado, paralisado, na sacada de meu quarto e senti minhas pernas dobrarem quando, do corredor, em um ponto bem em frente à porta, veio um uivo pavoroso que era um misto de dor, medo e ódio; um lamento que era animal, mas, antes de tudo, continha uma humanidade desesperada. Caí de joelhos pedindo à providência que me poupasse daquele horror, fosse ele o que fosse, e baixei a cabeça com os olhos fechados em alguma espécie de oração mal articulada.

Neste momento ouvi a porta do quarto ceder sob uma incrível pressão e em seguida uma maligna rajada de vento quente invadiu o ambiente. No final eu não podia me mover; os grilhões do medo me haviam aprisionado para além das possibilidades humanas, pois não era humano aquilo que entrou em minha casa aquela noite. Em meio ao calor que me atingia ainda tive duas sensações antes de desmaiar: a de um tênue cheiro de um perfume, que me era bastante conhecido dos tempos de casado, e a de que jogavam em mim, de um ponto mergulhado na escuridão a minha frente, gotas de alguma água fria e pegajosa. No entanto o que me tirou os sentidos não foi, de maneira alguma, uma impressão e sim uma percepção bem concreta, pois senti quando alguma fera diabólica, com um hálito frio e fétido, se abaixou sobre mim e me sussurrou no ouvido:

"Maldito, tu nunca mais dormirás de novo!"


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Henry Evaristo, obrigado por tudo.

Henry é um daqueles caras que não passa despercebido pela sua vida. Com sua inteligência afiada, nos mostra como esta é muito maior que os nossos desejos, que nossos propósitos egoístas. Conversar com este acriano é um aprendizado grandioso. Suas opiniões nos provocam, nos tiram do lugar comum, nos mostram como deveríamos buscar por aquilo que presunçosamente achamos saber. Henry é uma metralhadora giratória contra costumes anacrônicos, contra dogmas ingaros. O acriano usa as palavras para desorientar (isso mesmo! que delícia, não?)e, assim, conduzir-nos, sem mostrar o óbvio, à perguntas que deveriam ser constantes em nossa vida acomodada. Aliás, inconformar-se é vital ao senhor Evaristo. E como ele faz isto com maestria. Aprendo um turbilhão de esquemas e revejo um outro de conceitos, quando converso com este mestre, ou quando leio seus textos. Ele está aqui comigo. Meu mestre, meu amigo, meu irmão. Uso de eufemismo e digo que ele, de repente, sumiu. Não acredito em alma, espírito, outros mundos, outras vidas. Acerdito nele. Em seu exemplo. Que, para mim, será perene. Enquanto estiver eu a andar neste mundinho. Por isso usei todos os verbos no presente. Henry, obrigado por tudo.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Henry e a distância


Para Henry Evaristo

"Aquilo a que você resiste, persiste" (Carl Jung)

Cediço, minha angústia. Oculta, porém, sua causa. Vi, certa vez, no mais abissal vale da existência, uma possibilidade. Com ela entabulei o mais desafiador dos colóquios. Sua filosofia perscrutava a luz que reside nas trevas. A escuridão abismal do espírito. O negrume inescrutável do corpo.

A claridade mãe, ascendência irrevogável de toda sombra, falava-me de sua ubiquidade, e de como somos ludibriados pela esperança vã que destila. Então, penetrei as garras ansiosas de vontade, o mais profundamente possível. Em verdade, desafiei, aí, mesmo o impossível.

A hipótese perquirida na alongada depressão, entre montes feéricos, da vicissitude daquela realidade, me animava à tanto. Conquanto ignorasse, eu, o preço. Todavia, o logro é a moeda de troca, intransferível. Sempre. Pois, após o ineludível júbilo, fruto das andanças nas mágicas plagas do diálogo inusitado, veio célere a cobrança.

Férrea, impassível, fez-me gritar as dúvidas, tapando os ouvidos em espartana educação. Apontou, riste, a imane distância que acusava um horizonte remoto, fruto da cegueira declarada.

Ao deixar-me, levou a densidade. As sombras entrevadas. Arrastou, também, a escuridão.

Sabe, pois, agora, a semente da aflição a profligar-me. Como pode, ser que teima investigar, passar os dias caminhando o solo infértil da distância? Do belo? Do feio? Do bem, e do mal? Os ventos notáveis da indiferênça sussurram ao meu ouvido: aquilo a que você resiste, persiste. Cediço, assim, minha angústia...

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O espesso contingente de um fantasma

Seus olhos. Esferas acostumadas. Vítimas. Quais questões logram aquilo que enxergas? E quais insistem, bem sucedidas, na doutrina? Perscrute a ligação conturbada a me entregar. Incoerente? Outro diligente esforço do ditame, apenas. Estou aqui. Alhures. Nenhures. Alcance o cume do véu. Agora puxe-o resolutamente! Está vendo? Lembra-te do sábio? Muitos vêm, mas poucos enxergam! Teime com isso. Afasta-te do propósito que lhe nega o esquadrinhar fremente. O que entregar-lhe-á o sorvo. Estou aqui. Ao seu lado. Toca-me e sinta o passeio.
Elas são tão gentis. Cerdas doces, que aspiram sua atenção. Inspire o perfume da trama que arquiteta minhas idéias. Encare-me. Gosta do que, agora, pode ver, enxergar? Vê-me langorosa? Ou julga-me tranquila? Afinal, não posso ser as duas? Ou todas? Que questões logras...
Estarei aqui. Não vou embora. Partir não. É-me impossível. Confesso gostar. Sorver as possibilidades opacas, difíceis, garantem prazer imperscrutável. Não poder investigar é tão, mas tão, candente, que provoca aquela luz bruxuleante a nos seduzir ao final da catarse. Dê-me as mãos. Mostrar-lhe-ei qual. Seus olhos. Nos meus. Encanecidos? Necessário. Forçoso. Uma das leis. Chegue mais perto. Venha. Entre. Use o corrimão. Aprecia o amarelo? Os meus fios misturam-se às suas linhas. Elas são tão gentis. Oh, como são. Preciso repetir. Os lábios exânimes o agradam? Não sorrio, mas o posso. Quer? Está com frio? Gosta do anil puído? Aquece também. Elas entram e saem. Massageiam a tez. A vontade também. Branca, alva. Simpatiza com esta pele? Tenho que dizer-lhe. Há mais tempo fiz o mesmo com tantos. Pense no que enxergarás. Pense. Apenas pense. Não existe outra passagem. Precisa aproximar-se. Olhe. Elas estão esperando. Ansiosas. Sôfregas. Como eu. Correm. Eu também. Não vê? Que pena. Seus olhos. Como lhe disse. Seus olhos. Está tudo neles. Entregueme-os, pois o resto já tenho. Olhe! Elas, eu, estamos aqui. Nem percebeu? Rsrsrsrsrs! Terás muito tempo para. Só me entregue os olhos. Gentilmente. Posso arrancá-los se preferir. Espólio. Não, não chores. Só os feche, e me entregue.

O umbral, atrás, é incerteza. Densa, por isso turva. Seus olhos. Meus olhos. Entre. Escute o tugir que de lá escapa. Psssshhhhh....Este sim, sem proselitismos tácitos. Não enxugue as lágrimas. Que bom. Estamos felizes por sua decisão. Talante liberta! Que deus, na sua indiferença, lhe tenha compaixão rsrsrsrsrsrsrsrsrsr