quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Primaveras









Inapropriadas.

Quantas vezes consideramos tal, as insossas congratulações que nos acometem na suposta jucunda data a ditar-nos os anos, as inexoráveis lamentações do tempo?
Estas, travestidas de júbilo, revolvidas em felicidades ignorantes.

Tudo bem, devem estar considerando tais argumentos fruto de uma personalidade amarga, que apanhou com assaz vontade da vida, que nos é tão indiferente.
Não estão? Os que sim, enganam-se. Os que não, estão por entender. Teus pés pressionam o abismo da compreensão. Já, já, a queda. 

Aqui, nesta manifestação crepitante, onde aplausos e assovios acotovelam-se para ver quem tem razão, a alegria conspurca minha paciência, macula a temperança que insiste no jugo pungitivo com minha verdadeira ânsia. A canção penetra afligindo, negando olvidar-me das suas vibrações, que mergulham nefastas no poço da minha angústia. E este é inescrutavelmente profundo. Até mesmo a escuridão fez questão de esquecê-lo. Mais uma vez. E mais uma. O opróbio assalta-me, intensificando, olhem o absurdo, da canção que se apodera sem descanso da já pusilânime renitência que os abriga do réprobo que brilha, decidido, lá no abismo daquele poço dantes lembrado.

E sua luz começa a rutilar, putativa.

Sua natureza ominosa inicia resposta lutulenta, gélida, à irritante demonstração de felicidade que pulula alienada, que se multiplica confusa, embora a caterva que me rodeia, me afaga, brade vindouros dias de paz e prosperidade. Todos afirmando em contumácia seus desejos.

Agora a bolha estoura! Rompe-se o liame que prendia-me as suas cortesias, as suas crassas afabilidades sociais.

O paroxismo da ofensa? O que atravessou o umbral? O que rompeu a fina côdea que resistia ao sanguissedento a dormitar nas abissais poças do grande buraco devoluto de piedade a lograr em minha alma?

Aquela última e apelativa sentença!

Feliz Aniversário! Feliz Aniversário! Feliz Aniversário!

Um coro ensurdecedor, deflagrando o encovado com suas vozes energúmenas de solícita faustosidade!

Beócios!

Não sabem que data comemoram? Não sabem! Do esquipático? Do comum? Da ascendência fescenina que um dia me assaltou pela sanha do redivivo de apetite percuciente? Ou do resultado natural entre o encontro lascivo entre meus pais?

Não sabem! Não sabem! NÃO SABEM!
 
Feliz Aniversário! Feliz Aniversário! Feliz Aniversário!

A fera insurge! O demônio guincha rascante! A besta redargui às salvas com o grito a recender soez!

Não comemorem mais!

O inferno mostra garras, ulula a insana volúpia, a fim de beber, afogar-se no medo, na dor, na morte. A ineludível bocarra a obliterar gargantas que gritam!

Feliz Aniversário! Feliz Aniversário! FELIZ ANIVERSÁRIO!

A festa obumbra-se do mais denso, inconcusso e fétido dos fuscos.

Antes de comemorarem, agora, olhem o fosco dos meus olhos.

Talvez vejam o monstro a bruxulear lá no fundo.    


Sanguessedentos




“Mas não confie demais o homem na vitória sobre a sua natureza, porque ela pode estar sepultada durante muito tempo, e ressuscitar no primeiro momento de tentação" (Francis Bacon)

 
Sem beatitude. Sem admoestações estultas. Apenas frente às necessidades.
Aliás, estas são como os idealismos. Todos inúteis.

Ah, que considerações saltam-me a cabeça! Estou prenhe de abrasados desejos, gostos por todos os lados, conluios de vontades dissolutas!

As exortações insistem, mas renovo meus votos de resistência. Não há mansuetude neste corpo, neste espírito, nesta respiração.
Vês?
A lápide fora removida com diligente vontade. Ergueu-se da cova, nada putrefato, o sôfrego. Por você, auspício de prazeres.

Ignorava suas linhas, num mundo indiferente. Mas a confiança no modelo estóico é parva. Se sinalizarmos com tinta mais vívida, logo enxergamos a insídia. Ela, dona absoluta da minha luxúria, alcançou-me a matiz exata.
Estou a colorir efusivamente todos os espaços, agora. Haurir seus mandos irrefletidamente é o que passei a fazer. Escravo do cheiro. Vassalo dos aromas a espargir-lhe da tez, das sentenças fitadas nas íris de cores rutilantes.

Espero-te, ávido, na noite onde combinações inopinadas prometemos um ao outro. A porta de seu endereço, expectante, investigo os detalhes da umbra a nos acomodar durante a tarefa.
Ensejos pungentes, benjamins dos nossos acordos, falam-me das possibilidades.
Escuto os toques a descer degraus impertinentes a minha paciência. Vê-la e por o labor em curso. Vê-la e alegrar-me na fruição das pupilas resolutas.

Ósculo lascivo, com gosto do sangue. Aquele que marcou-nos o compromisso perene. No sêmen do acordo que fizemos, toda a cruciante verdade a nos possuir. Exultamos frementes ao toque dos lábios. Selvageria e fúria oportunizadas no encontro. Subimos à altura adequada. Esperamos, devolutos, os passos trôpegos das ovelhas. Saltamos sobre o rebanho e refocilamo-nos em seus gritos de suplica.

Resistimos a tudo, menos às tentações. Concordamos com o poeta irlandes.
Em verdade, mais.
Queremos aquilo que nossa natureza pode. Aquilo que nossa ascendência permite e aconselha severa. Enlaçamo-nos. Abraço vesano, enfeitado pelos mesmos gostos da fúria pontiaguda a pungir nosso ditame.

Eu e você, dona absoluta das necessidades urentes da carne a cobrir meu ofício. Querer-te na dor, fazer-te o alcance dos nossos detalhes lúgubres. Tão perto e, alucinadamente, tão longe.

Má sorte de todos os outros. 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

hemoglobina








Que estranha ilusão supor que o belo é bom” (Tolstoi)


Subi, reticente.
Não sabia o que me esperava, conquanto o inescrutável sempre tenha, em mim, logrado assaz enlevo.

As vezes que, dela, pude a presença usufruir, questões mordazes me assaltaram. Estas, entretanto, não eram-me claras, apesar da sua natureza ser dolosamente explicita. Incongruências inatas da situação impar, concluía.

E assim, por tempo que já não me faz diferença, passei o cotidiano agora matizado de sua presença. Até o momento em que sou obrigado à este relato. Até os passos que tentam vencer os degraus a acessar-me o seu quarto.

As reticências, quando já estava a bater-lhe a porta, exortavam, como de costume. Se estes excertos nasciam dos lastros que havíamos construídos até então, não poderia dizer, de fato. Todavia, indicavam a penúria dos argumentos, pressentia.

Um, dois, três toques.

Em resposta, silêncio perturbador a demorar por instantes de recrescidas angustias.

A sinfonia entregue pela perda de contato entre porta e umbral, característica ignominiosa do som natural deste desencontro, avolumou sentidos meus, aguçados de antemão pela esperança sub-reptícia que dava-me as mãos, apertadas, desde o inicio da empresa.

Inspirou profundamente, pressionando as alvas pálpebras, até estas formarem fina linha de cílios negros encantadores. Premia os lábios carnudos e inchados de vermelho recrescido pela alvura da tez limpa, “porcelanada”, arrisco dizer.

Estendeu-me a educação, mesura encarnada em sua linhagem há priscos tempos, via-se desde o primeiro contato. Abria-se o horizonte das possibilidades encantadoras, ali, naquele simples gesto. Toda ansiedade, qualquer coisa a vaticinar incômodos, tudo a admoestar as reticências arcanas que me queriam algo dizer. Nada disso arrazoava suficientemente mais. Só os auspícios da beleza.

Que apenas ela, em sua augusta manifestação, regia os ditames do encontro.

Palavra não saltou-lhe a boca.

Indicou-me a poltrona, em estranha azáfama. No átimo da transição entre ordem e obediência, fixei olhar no colo transparente, que deixava a trama azul-esverdeada de veias e artérias em sintonia com desejos alhures procurados.

Vide o retrair e expandir em êxtase do torso artífice de vontades provocantes.

Prostrei-me e esperei a primeira sentença, construída em aforismos de peculiar penetração.

Nada.

Dois rutilantes olhos se aproximavam da minha alma, somente. Afundavam, macios, por entre os tecidos que constituíam esta matéria ignorada pela ciência.

Vi, enxerguei o gozo de mil prazeres amalgamados numa explosão incontrolável, que assaltar-me-ia iminente. Assim tratou-me até este dia. Assim tratar-me-ia novamente.

Céus. Infernos. Nada! O logradouro ao qual me dirigia era muito mais enlevante!

(...)

Lembro-me dos conselhos. Recordo-me do sentido apelado. Mas as reminiscências apagam-se neste exato instante. Tento invadir, ir mais longe no acesso as respostas, se é que elas existem.

Mas sou barrado por sensações muito mais atiladas. Estas prendem-me, mantendo o corpo ajoelhado e o espírito exposto.

O vampiro sorri, ao libar pelas fendas toda gota que escorre na fluidez dos espaços abertos. Os sulcos profundos dão permissão ao mergulho em arquejo estridente, arras da natureza lúrida desta e dos comensais que, agora, sentam, agacham-se, ao seu lado, no banquete.

Até quando?

Não sei.

Apenas que era agosto, mês ordinário, como seus irmãos.

Ainda o é? Pelo prazer em seus olhos, o gosto ainda é dos melhores.

Então, até quando?

Façamos assim, quando acabar, poderás ter a chance de saber, ao encontra-la. Ao encontra-los.

Para seu desgosto.



quinta-feira, 12 de maio de 2011

Avatar

Meu amigo e irmão Marcio Renato Bordin, deu-me a honra, há algum tempo, de escrever-lhe um capítulo da saga Anjos Malditos, uma promissora história vampiresca, com seus protagonistas, Julian e Kyra, a nos seduzir em cada um dos capítulos já escritos. Avatar é um capítulo extra que pode causar algum estranhamento na cronologia da série, mas que me foi assaz prazeroso escrever. Obrigado Marcião pelo ensejo. 
Conheça a série em www.anjos-malditos.blogspot.com 



Ao que o condenado considerava os excessos do cura, e das prosélitas, não lhe foi possível escrutar. Expirou a impressão, a lhe assaltar no encontro com as exageradas manifestações de persignações, e deu termo a tudo aquilo. Voltou a ter com a jovem senhorita que, resoluta, instava-o a abolir com a recente natureza, assaz abjeta, da turba ensandecida e por suas vis necessidades na urbe que queimava sob firmamento acanaveado. Titubeava, incréu no niilismo
que afundava a pequenina cidade, e logo era clamado à ação por Kyra, alcunha reduzida da semente dos terrores a pervagar por lá.

A dar-se por isso, Julian inspirava a frustração exstante que lograva do método. Aquele mesmo que garantia-lhe louros por aquiescer com as regras da lógica. Lorpa! Neste momento, de troça e chiste, vermelhou-se com o desdouro da sua certeza.

- Kyra, estamos próximos?
- Sim, Julian. Mais dois quarteirões, no máximo. Esta bagunça confunde-me. A cidade está inçada pelo levante destes arruaceiros.
- E quem é a responsável?
- Mesmo que a relevância seja, agora, o menor dos nossos problemas, você, Julian, sabe muito bem quem. “...a frustração da credulidade no método...”. Julian pousa os olhos no chão varrido pela fúria da prole amaldiçoada e resigna-se.

O grupo sibilava, à porta estreita que fincava obstáculo entre Kyra e Julian. Curioso como os modos alternam-se, mesmo quando homens encontram-se contaminados por sugestões de outra natureza. Movimentos oblíquos serpenteavam a reunião esporádica, dando-lhes o sinistro necessário ao sentido de Julian. Afinou os lábios e espremeu dentes afora. Rosnou, num silvo longo e grave, entregando a missiva notória que antecede, forçosamente, encontros acalorados e grosseiros. Kyra, por instinto, novo ou velho, permitiu-se o mesmo. O primeiro condenado, com certo ar janota, saltou-lhes o ardil às ventas, mas deu com a cara, em metáfora e literalismo, no abafadiço caráter do vetusto vampiro. Este, há muito irritadiço pela corrupção de suas regras, meteu-lhe o punho nas ventas, abonançando a ênfase belicosa do ataque. O resto da bandalha azedou-se, recrudescendo o espírito belicoso, próprio dos malditos. Avançaram energicamente à uma água-suja de socos, pontapés, mordidas e fraturas. O remate do empenho furibundo foi nada menos que a matança cru dos mandriões recém nascidos para os mistérios da nova vitalidade. Ah, jovem Kyra, o hercúleo morticínio lhe causa espanto?

Julian, de imediato absorto em átomos reflexivos, pouco nota a aflição que assoma sua companhia. Amém, então, vampiro. Vá ter com ela, na sua ambigüidade, pois é sua progenitora quem os trouxe aqui, lembra-te?

- Kyra, espere. Sabe, Lúcifer, o que possui, reformulo melhor, quantos tomam depois desta porta?
- E o que importa, Julian? Se olvidaste o que se espalha aos seus pés, basta, por ocasião e necessidade, olhar para baixo! O vampiro meneia a cabeça confusa, pois a sabe incoerente. É suficiente concordar com Kyra e adeus receio!

Dentro era mesmo um pequeno vestíbulo, revirado nos poucos móveis e vergastado na atmosfera. Filha, apesar do destrato, convém amar uma mãe. Kyra, por esta consideração, investiga em minúcias toda nesga de sombra que alugou, por direito, o espaço. Pede mamãe. Grita aos soluços. A treva não enamora o sigilo com virtude, bem sabemos, conquanto vivam a jurar fidelidade. Posto isto, é conseqüência, assim, a presença da mãe, denunciada por choro e riso, num canto qualquer, negligenciado pela perscrutação afetada de Kyra.

- Mãe! Venha! Deixa-me socorrê-la! Pelos céus, e se esqueço os infernos é por causa da sua deferência ao perigo que corre. Mãe! Naquele cantinho, revirado ao borbotão, um bulício é única resposta, e dê-se por satisfeita, vampira.

O vampiro, por sua vez, e na inspiração natural, cediça apenas aos sempiternos mais remotos, logo nota o rogo injetado de dolo no semblante casmurro daquela que estão a procurar.

Bolacha-quebrada todos lá fora! Esta, aí no canto, é problema cru!

O vampiro, antes brônzeo, hesita. Vê o desespero teimoso nos olhos que rutilam excitados naquele escurinho. Junto ao lengalenga da criatura, conclui dois mais dois e finca o pé. Já sabe o que arbitrou e faz como aqueles senhores que nada mais querem com compostura ou outras educações. De supetão interrompe a inflamada questão que arde no coração da menina, própria do parentesco preocupado daquelas situações.

- Julian, estás louco?
- Aquela é sua mãe?
- Sim!
- Está possuída. O vampiro entrega a sentença com a voz embargada e grave.
- O que me importa! Então, destarte, seremos para sempre! Kyra, nesta afirmação, aboli toda circunstância da categoria que os afeta. A ela, ao vampiro e a sua mãe. Nem um tostão reflexivo sobre.
- Não. Tu não me entendeste. Não há adjutório possível. Matá-la-emos agora. Kyra. Jovem vampira, jovem ciência. Sem estudar, pois o tempo, a ti, também é moço, faltar-lhe-á o entendimento imediato. Pois bem, mais a frente, no curso, colherá o saber necessário.
- O que estás a falar, Julian? Deduzo insanidade? Ou seu discurso tem o lastro douto dos anos que não vivi? É minha mãe! Salvá-la-emos, isso sim! Deixe, caro leitor, a certeza lhe acompanhar; Kyra deu mesmo uma ordem!

Sabes aquela velocidade ímpar a manifestar-se naqueles que costumamos, por preguiça e comodidade, alcunharmos vampiros? A réplica de Julian, pois bem, ao imperativo categórico da noviça. Embolaram-se, o vampiro e a energúmena senhora, em luta cruenta e copiosa. Kyra a tudo tremia. Julgo-lhe com o espírito em lassidão solene, sem forças para reação alguma. E estava certo, preciso concluir. A assuada entre os dois azedava a cada soco e pontapé, a cada furo e rasgão, uma vez que sabiam a morte o desenlace da prebenda. E não desapontou-nos o vetusto. Avassala, fazendo o favor de separar, com prestes golpes, cabeça e tronco. Injuriando ferinamente a vampira que foi ter com o morto-vivo.

Olhos esbugalhados, a marejar-se, assistem a tudo. Malogrou na tentativa; salvar-lhe a mãe. Tenta motejar da pintura. Falha outra vez e chora. Chora o protocolo das perdas sentimentais. Kyra amanhece pensamentos vindouros. Mas logo desanima e cai. Julian aquiesce o drama. Os anos a pesarem-lhe nas costas espadaúdas corrigem qualquer julgamento leviano.

- Farás o mesmo com a cáfila ensandecida? ; a debutante coteja o vampiro, num tom lamurioso, incluso aí para prestar mais drama e indignação.
- São muitos; redargui o chibante umbrífero. O tom encanece-lhe, como escapando do impossível, ainda mais a pele. O que isto quer dizer, caros, só podemos especular.
- Já volto à realidade, e protesto-me a sair deste antro; insta Kyra.
- Pois bem, penso o mesmo. Vamo-nos daqui.

A depravação avulta sobranceira nas ruelas e avenidas. À onde o curso remete, o endereço parece corrompido. Os dois a estranhar-se aqui e ali, sovando, antes de levar aos túmulos, os vagabundos que insuflavam sanguissedentos, o angu-de-caroço que estava virando norma naquele cafundó. Uns quantos conseguem dar fim. Mas, sabe Julian, que o tema está perdido. Não há hora extra a dar conta da besteira toda. A carranca endurece, e amaldiçoa o dia em que botou os pés neste caxa-prego.

- Julian, lembra-te do multívago? Falo daquele, causa da barafunda? Em respeito à verdade, não ele, antes eu...
- Kyra, o néscio, pelo que nos é permitido saber, haver-se-á com qualquer infeliz nesta cidade, ou onde seu horizonte lhe esperar. Com mais, ou menos, sangue nas ventas, ele, agora, não é gravidade maior que o resto da patuléia a chuchar os pobres, poucos, que ainda sobram nesta urbe. Ademais...

Os dois danados são pegos na coincidência. A igrejinha, diminutivo emprestado à tamanho e aconchego, sorri. Daqueles oblíquos, que podem, de fato e direito, troçar-nos o espírito. E conseguem. Julian quer saber; por que não gritam mais? As carolas e o clérigo? Está, aí, a piada que enviesa da arquitetura santa? Entro sem reticência, afirma o vampiro. Kyra, logo atrás. O primeiro enche-se de zina. A segunda, de espanto. O fuzuê de gente sepultada, umas sobre as outras, lançadas ao pé do velhaco, dá forma, e substancia, mister acrescentar, à mofa que escapa-lhe os lábios. E nos olhos? Conquanto estes recebam os adjetivos que nos asseguram uma alma, podem também concluir-nos o contrário. Olha ali! Vês! É pedra! Estatua! Nada há, a não ser algidez e indiferença! Próprio dos quefazeres impassíveis! Julian rosna, e arreganha os beiços; é mesmo a etiqueta dos malditos. Mordedura pronta! Kyra, logo atrás.

- Julian, é o pulha! Veja o arrivismo!
- kyra, deixa-nos! Constrange unha - as quer por garras? - nas carnes das mãos. Quando fura e sangra, viceja vermelho. Basta para os dois. Atiram-se. Kyra já se foi. Fechou a porta. E escuta. Deus do céu!
 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Coulrofobia



A visão era assaz angustiante. Não entendia o, ou os, motivos. Sentia recrescida necessidade de fugir. De gritar o terror que lhe assaltava violentamente. Mas não eram alternativas. Era-lhe possível apenas a paralisia do pânico, acompanhada das náuseas, do ar que faltava aos pulmões, e da excessiva sudorese.

Lembrava-se, por vezes, que a explicação científica não lhe convencia. Experiências traumáticas com um individuo, ou uma representação, singular. Mas não recordava-se de tal circunstância. Amnésia seletiva? Era apenas outro argumento racional. Mas sabia, sentia, que algo faltava.

Schlomo tratava-se há muito. Sua fobia era classificada como Simples, onde o medo era circunscrito a objetos ou situações concretas. Um transtorno de ansiedade que se manifestava em situações particulares. A psicoterapia trabalhava os três aspectos do tratamento. Comportamental, cognitivo e psicodinâmico. Mas, conquanto os esforços fossem disciplinados, pouco avanço conseguia-se. Seu caso, de certa forma, intrigava os especialistas.

Garantiram-lhe a ausência. Não haveria a presença intimidadora que lhe fornecia pavor arrítmico. Schlomo era o padrinho. Esta consideração, assim, era-lhe o mínimo de respeito devido. Os pais, amigos de longa data, forçosamente, neste caso, estavam a parte do inconveniente social que acompanhava o amigo. O garoto, mesmo, completaria dez verões. Uma figura daquelas não seria tão apreciada, então, pelos convidados. Enfim, tudo correria sem os constrangimentos experimentados inúmeras vezes por Schlomo nestas ocasiões. Em tempo, era uma das partes do tratamento. Exposição controlada e progressiva ao objeto fóbico. Mas o sucesso era eclipsado pelas varias vezes em que deixara, célere, os locais onde o, ou os, via.

E todos os momentos cursaram agradáveis. Todas as etapas combinadas implicitamente, todos os acordos tácitos destas festividades, foram encenados com espontaneidade e alegria. Schlomo sentia-se leve. Natural. Comum e normal.

A noite avançava, respeitando as leis naturais que lhe regiam. Pensou fazer parte do sonho. Mas a repetição insistente do som agudo fora, aos poucos, retirando-lhe do devaneio que lhe confundia o chamado. A campainha tocava, soava, de tão resoluta, irritava. Mas, por que diabos a esta hora? Levantou-se indignado. Mesmo ciente de que, costumeiramente, tal circunstância era fundamentada em alguma situação nada agradável. Alguma coisa ruim acontecera? Atravessou, trôpego, o longo corredor que acessava a escada a ligar o segundo andar ao primeiro piso. No pequeno vestíbulo, tomado pela umbra natural a uma noite sem luar, demorou a achar o interruptor. Gritou, ante a insistência frenética do acessório sonoro: um momento, por favor! Quando a luz encheu o cômodo, seus olhos se fecharam imediatamente. Quando já acostumados a claridade, percebeu o embrulho no móvel que ladeava a parede sul. O papel de presente reluzia, fulgurante, em cima da bela mesinha estilo Luiz XV.

- Puta que o pariu!! Schlomo nem titubeou. Soltou o calão como que por instinto. A campainha cessou em seguida. Um silencio, daqueles que ensejam agouros ignominiosos, fez-se. Avançou, o balzaquiano, à maçaneta. Girou os trincos e correu a porta na direção necessária.
- Padrinho, esqueceu meu presente? Fiquei muito triste. Mas, meu amigo consolou-me. E se dispôs a trazer-me aqui para buscá-lo.
- O quê? Como? Seu amigo? Rapazinho, você sabe que horas são? Aliás, seus pais sabem disso?
- Meu amigo falou-me que sim. Ele mesmo pediu a eles.
- Que história é esta de seu amigo? Não vejo ninguém, só você. Entre, vou vestir-me e leva-lo de volta. Era só o que me faltava.

Malgrado o insólito da situação, afinal uma criança de dez anos não costuma sair de casa, sem os pais, a esta hora, Schlomo não alongou o interrogatório. Ao abrir um pouco mais a porta, para que o garoto entrasse de uma vez, Schlomo sentiu a flexão involuntária de seus joelhos, provocada pela fraqueza súbita que lhe acometera as pernas. A aceleração desvairada da freqüência respiratória, acompanhada pelo descompasso celerado do ritmo cardíaco oportunizou a descarga de sensações desesperadoras, há muito familiares.   

Encontram-no, decompondo aceleradamente, deitado em sua cama. Preso em dedos de incomum rigor mortis, um embrulho aberto que permitia distinguir seu conteúdo. Uma caixa abrigava certo brinquedo. Um boneco que representava a personagem símbolo da alegria no folclore de muitas sociedades. Infarto fulminante. O medico legista registrou, após a investigação legal da necropsia.

- Papai! Mamãe! Por que o padrinho não me presenteou? Um sorriso amarelo e tímido, carregado de incompreensão, foi a única resposta possível.