quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
hemoglobina
Que estranha ilusão supor que o belo é bom” (Tolstoi)
Subi, reticente.
Não sabia o que me esperava, conquanto o inescrutável sempre tenha, em mim, logrado assaz enlevo.
As vezes que, dela, pude a presença usufruir, questões mordazes me assaltaram. Estas, entretanto, não eram-me claras, apesar da sua natureza ser dolosamente explicita. Incongruências inatas da situação impar, concluía.
E assim, por tempo que já não me faz diferença, passei o cotidiano agora matizado de sua presença. Até o momento em que sou obrigado à este relato. Até os passos que tentam vencer os degraus a acessar-me o seu quarto.
As reticências, quando já estava a bater-lhe a porta, exortavam, como de costume. Se estes excertos nasciam dos lastros que havíamos construídos até então, não poderia dizer, de fato. Todavia, indicavam a penúria dos argumentos, pressentia.
Um, dois, três toques.
Em resposta, silêncio perturbador a demorar por instantes de recrescidas angustias.
A sinfonia entregue pela perda de contato entre porta e umbral, característica ignominiosa do som natural deste desencontro, avolumou sentidos meus, aguçados de antemão pela esperança sub-reptícia que dava-me as mãos, apertadas, desde o inicio da empresa.
Inspirou profundamente, pressionando as alvas pálpebras, até estas formarem fina linha de cílios negros encantadores. Premia os lábios carnudos e inchados de vermelho recrescido pela alvura da tez limpa, “porcelanada”, arrisco dizer.
Estendeu-me a educação, mesura encarnada em sua linhagem há priscos tempos, via-se desde o primeiro contato. Abria-se o horizonte das possibilidades encantadoras, ali, naquele simples gesto. Toda ansiedade, qualquer coisa a vaticinar incômodos, tudo a admoestar as reticências arcanas que me queriam algo dizer. Nada disso arrazoava suficientemente mais. Só os auspícios da beleza.
Que apenas ela, em sua augusta manifestação, regia os ditames do encontro.
Palavra não saltou-lhe a boca.
Indicou-me a poltrona, em estranha azáfama. No átimo da transição entre ordem e obediência, fixei olhar no colo transparente, que deixava a trama azul-esverdeada de veias e artérias em sintonia com desejos alhures procurados.
Vide o retrair e expandir em êxtase do torso artífice de vontades provocantes.
Prostrei-me e esperei a primeira sentença, construída em aforismos de peculiar penetração.
Nada.
Dois rutilantes olhos se aproximavam da minha alma, somente. Afundavam, macios, por entre os tecidos que constituíam esta matéria ignorada pela ciência.
Vi, enxerguei o gozo de mil prazeres amalgamados numa explosão incontrolável, que assaltar-me-ia iminente. Assim tratou-me até este dia. Assim tratar-me-ia novamente.
Céus. Infernos. Nada! O logradouro ao qual me dirigia era muito mais enlevante!
(...)
Lembro-me dos conselhos. Recordo-me do sentido apelado. Mas as reminiscências apagam-se neste exato instante. Tento invadir, ir mais longe no acesso as respostas, se é que elas existem.
Mas sou barrado por sensações muito mais atiladas. Estas prendem-me, mantendo o corpo ajoelhado e o espírito exposto.
O vampiro sorri, ao libar pelas fendas toda gota que escorre na fluidez dos espaços abertos. Os sulcos profundos dão permissão ao mergulho em arquejo estridente, arras da natureza lúrida desta e dos comensais que, agora, sentam, agacham-se, ao seu lado, no banquete.
Até quando?
Não sei.
Apenas que era agosto, mês ordinário, como seus irmãos.
Ainda o é? Pelo prazer em seus olhos, o gosto ainda é dos melhores.
Então, até quando?
Façamos assim, quando acabar, poderás ter a chance de saber, ao encontra-la. Ao encontra-los.
Para seu desgosto.
quinta-feira, 12 de maio de 2011
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que afundava a pequenina cidade, e logo era clamado à ação por Kyra, alcunha reduzida da semente dos terrores a pervagar por lá.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Coulrofobia
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
O Dragão na Garagem
- Agora sou mais que um teorema, não é mesmo?
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Rancor
Tânia Souza e Victor Meloni
Dedicado a Henry Evaristo
No quarto escuro, as cortinas moveram-se lentamente enquanto leves respingos negros tocavam o solo de madeira. Na cama, um homem balbuciava em meio a horrendos pesadelos. Uma frase sussurrada entrelaçou sonho e realidade. O lago, mais uma vez o lago e sua superfície negra. Ele se aproximou lentamente. Uma neblina espessa erguia-se em miasmas de madeiras apodrecidas e pedras cobertas por musgos. O tempo todo, sentia-se como se por trás das velhas árvores olhos nefastos o espiassem... No piso de madeira, pequenas poças de água se formavam em direção ao leito. As águas barrentas deixavam sua marca, seu odor nauseante.
— Sr Black....
O homem debateu-se no leito.
— Sr Black... — A voz sussurrava, insistente.— Sr Black, acorde!
Um arrepio de puro horror o percorreu e sentou-se assustado. Sentiu a pele pegajosa de suor. Os murmúrios do sonho ainda permaneciam ao seu ouvido, chamando-o. Ao seu lado, Aimée dormia, ressonando
O inverno ainda não mostrara suas garras, ao contrário, a longa e atípica estiagem parecia não ter fim, mas naquela noite, tudo mudaria. Foi ate a janela e lentamente aspirou o ar da noite. A casa parecia coberta por uma luz esverdeada doentia e o céu encobria, entre as nuvens escuras um luar de envolto em vermelho, enquanto um vento gélido soprava respingos de uma chuva distante. O frio chegara com a madrugada. As nuvens moviam-se de forma assombrosa e prenúncios de uma tempestade se apresentavam.
A tonalidade expressamente laranja tomava a noite e os andares da pequena fortaleza erguiam-se intocáveis, Fergus Black observou a paisagem pelo telescópio. Algo estava chegando. Poderia pressentir nos pêlos arrepiados dos braços. Nas fundações em pedra, na madeira que rangia levemente ao vento. Nos galhos das arvores agitadas. Voltou os olhos ao confuso labirinto que circundava a mansão onde vivia. Nada além de guardas ocasionais na ronda noturna. A estrada em espiral que conduzia à casa permanecia isolada, vazia. Ninguém ousaria se aproximar do lugar fortemente armado. Do lado oposto, o lago. A superfície pareceu-lhe um negro espelho. Ao longe, a chama de um fósforo e o brilho de um cigarro. Respirou mais calmo, os guardas eram de sua inteira confiança.
De súbito, vislumbrou nas pedras o que poderia identificar como um vulto escuro se arrastando. Fixando o olhar, suspirou aliviado quando uma ave sombria alçou vôo na noite. Observou mais uma vez as escadas em espiral, preparando-se para voltar quando seus olhos foram novamente atraídos para o lago negro, que se movia tal como se estivesse sendo cortado pela travessia de um visitante desconhecido. Arrepiou-se e voltou-se pronto para atacar o dono da mão fria que lhe tocava o ombro. Era apenas Aimée, a Sr Aimée Black, lhe abraçando:
— Volte para cama amor, está frio.
Olhou mais uma vez ao lago, que agora permanecia tranquilo. Vencendo a inquietação, voltou para seus aposentos e, tentando não se lembrar dos pesadelos, logo adormeceu.
No lago, o corpo esguio atravessou as águas escuras. Lentamente o vulto tomava a forma de uma moça que escalava as pedras, o vestido longo e negro desfazendo-se ao contato com a rocha cortante. Os cabelos pingavam e a pele era escura como a noite. Entre as sombras, tudo o que se via era a água vencendo a terra seca, caminhando lentamente em direção a mansão. A voz era baixa, feminina, sussurrada entre desespero e sedução.
—... Sr Black! Venha Sr Black!
Ela estava em meio as águas. Os longos cabelos ruivos e ondulados. A pele apresentava-se úmida como se coberta pelos mesmos musgos que espalhavam-se nas pedras. Black aproximou-se do lago. Um véu enegrecido e transparente se espalhou na superfície. Procurou, e suas mãos encontraram um galho na beira do lago. Estendeu-o e tentou puxá-lo, mas quando estas a tocaram, a renda apodreceu e retornou ao negrume das aguas. Ousou entrar, em direção a ela. Quando vislumbrou um sorriso, ao seu redor o sangue espalhou-se sob o espelho liquido, como raízes rubras, cobrindo a superfície escura pela cor vivida e sanguinolenta.
Sua imagem fornecia os ensejos do desespero imanente. Aquele que opugna todas as virtudes, onde o vicio escarnece da hipocrisia inerente a todas estas, sem exceção. Este paroxismo de aflição perpetrava-lhe o cartesianismo irreparável da alma e do corpo. Fergus serviu-se do medo inflexível, sentindo o amargo, o azáfama, forçoso da sua presença. Perscrutou as margens a emanar, recrescidas, o vapor da condensação e sentiu o conluio dos vapores, dos calores, com o malsão. O álgido que lhe cobria à cintura, tilintava-lhe os sentidos. Entorpecia tentativas de lograr a razão naquele endereço. A sobejar em laços encanecidos, misturados ao púrpuro visguento do liquido a dominar o recurso natural, em tranças que iam em dança lôbrega, abraçando membros enregelados, tronco em expansão, de um parco espírito dessorado pela vívida intenção do espectro.
- Sr Black, por que não atendeste meus desejos? Onde guardava sua máscula natureza nos dias quentes que insistiam em oferecer-me? Sr Black, onde estou agora que lhe quero mais? Sr Black, posso?
Faculdades existem para guiar-nos num mundo onde idéias e seu concreto são necessários. Onde, então, se um desvio obrigatório se apresentasse? Ali, Fergus Black encontrava angustia e dor, sufoco e rancor, miséria e terror. Ali, Fergus Black quedou-se no lutulento resultado das suas escolhas. Da sua pusilânime escolha.
(...)
As sentinelas percorriam os perímetros. Escrutavam as trevas que, em deliberação, escondem-nos as entranhas. O silencio fazia-os sossegarem. Seu senhor estava em segurança indubitável. Nada passara por seus diligentes olhos. Nada escapara a seus atentos ouvidos. Um ou outro mamífero silvestre. Algum réptil ignóbil. Nada mais. A suave fumaça deixava, ominosa, o fumo que lhes regozijava a carne. A lhes intumescer a garganta cheia de favores e imprecações. Alguns seixos jogados ao lago. Uns repetiam sua trajetória, batendo algumas vezes no espelho d’água. Outros afundavam sem tal peripécia. Todos “a” atravessavam. Os guardas? Nada enxergavam, a não ser um horizonte que se ia, tomado pelo negrume breve. Antes destas trevas, suspenso na superfície glacial, o apodítico destino daqueles que zombam do extraordinário. A sentença cabal dos corações cobertos em chagas, que se resumem no conspícuo aferro da vingança constrangida. Pelo quê? Pelo rancor que crispa todos os espíritos dissimulados pelos sofismas da virtude máxima. Créscimos do que outrora constituía a matéria de Fergus Black, nadavam no espelho devoluto do lago energúmeno pela expropação da bela Reed.
(...)
- Fergus? Querido? Novamente encarando a noite, meu amor? Retorne ao nosso leito. Venha aquecer-se, senão pretende resfriar-se.
A silhueta do homem, desenhada contra a janela pela forte luz da noite que impera, permanecia estática. Em silêncio imperturbável. Aimée toca o lado do cônjuge. Pede sua presença novamente, e recebe o relevo inconcusso de outro corpo a vizinhar-lhe. O músculo régio em seu peito dispara vertiginoso. É obsedada pelas mais viperinas sensações, pois sabe-se em últimas de tempestuosa presença. Vira-se reticente, e encara a face encovada, dona de cabelos encarnados e olhos trêfegos, ávidos por supliciar seu objeto.
- Sra Black, por que deputaste seu senhor a tal empresa encarniçada? Sabia-o de espírito entibiado. Entendeste, desde sempre, minhas razões. Sra. Black, por que, então, me julgaste esta frascária? Sr Black, onde estou? Ajuuuuda-meeee...mãeeee....
(...)
Encontrar a maldade que nasce túrgida da veia imperscrutável de atitudes ominosas é, com freqüência, assaz determinante. E esse recrescer que não ouve suplicas de arrependimento arrebata percuciente todos aqueles que deferiram a natureza do castigo impensado. A doce e bela Reed. A menina que fez da paixão sua lápide ignara. Agora repousa sentenças entenebrecedoras àqueles que não a entenderam. E cobra as dores do espírito, em juros da carne.



