quinta-feira, 12 de maio de 2011

Avatar

Meu amigo e irmão Marcio Renato Bordin, deu-me a honra, há algum tempo, de escrever-lhe um capítulo da saga Anjos Malditos, uma promissora história vampiresca, com seus protagonistas, Julian e Kyra, a nos seduzir em cada um dos capítulos já escritos. Avatar é um capítulo extra que pode causar algum estranhamento na cronologia da série, mas que me foi assaz prazeroso escrever. Obrigado Marcião pelo ensejo. 
Conheça a série em www.anjos-malditos.blogspot.com 



Ao que o condenado considerava os excessos do cura, e das prosélitas, não lhe foi possível escrutar. Expirou a impressão, a lhe assaltar no encontro com as exageradas manifestações de persignações, e deu termo a tudo aquilo. Voltou a ter com a jovem senhorita que, resoluta, instava-o a abolir com a recente natureza, assaz abjeta, da turba ensandecida e por suas vis necessidades na urbe que queimava sob firmamento acanaveado. Titubeava, incréu no niilismo
que afundava a pequenina cidade, e logo era clamado à ação por Kyra, alcunha reduzida da semente dos terrores a pervagar por lá.

A dar-se por isso, Julian inspirava a frustração exstante que lograva do método. Aquele mesmo que garantia-lhe louros por aquiescer com as regras da lógica. Lorpa! Neste momento, de troça e chiste, vermelhou-se com o desdouro da sua certeza.

- Kyra, estamos próximos?
- Sim, Julian. Mais dois quarteirões, no máximo. Esta bagunça confunde-me. A cidade está inçada pelo levante destes arruaceiros.
- E quem é a responsável?
- Mesmo que a relevância seja, agora, o menor dos nossos problemas, você, Julian, sabe muito bem quem. “...a frustração da credulidade no método...”. Julian pousa os olhos no chão varrido pela fúria da prole amaldiçoada e resigna-se.

O grupo sibilava, à porta estreita que fincava obstáculo entre Kyra e Julian. Curioso como os modos alternam-se, mesmo quando homens encontram-se contaminados por sugestões de outra natureza. Movimentos oblíquos serpenteavam a reunião esporádica, dando-lhes o sinistro necessário ao sentido de Julian. Afinou os lábios e espremeu dentes afora. Rosnou, num silvo longo e grave, entregando a missiva notória que antecede, forçosamente, encontros acalorados e grosseiros. Kyra, por instinto, novo ou velho, permitiu-se o mesmo. O primeiro condenado, com certo ar janota, saltou-lhes o ardil às ventas, mas deu com a cara, em metáfora e literalismo, no abafadiço caráter do vetusto vampiro. Este, há muito irritadiço pela corrupção de suas regras, meteu-lhe o punho nas ventas, abonançando a ênfase belicosa do ataque. O resto da bandalha azedou-se, recrudescendo o espírito belicoso, próprio dos malditos. Avançaram energicamente à uma água-suja de socos, pontapés, mordidas e fraturas. O remate do empenho furibundo foi nada menos que a matança cru dos mandriões recém nascidos para os mistérios da nova vitalidade. Ah, jovem Kyra, o hercúleo morticínio lhe causa espanto?

Julian, de imediato absorto em átomos reflexivos, pouco nota a aflição que assoma sua companhia. Amém, então, vampiro. Vá ter com ela, na sua ambigüidade, pois é sua progenitora quem os trouxe aqui, lembra-te?

- Kyra, espere. Sabe, Lúcifer, o que possui, reformulo melhor, quantos tomam depois desta porta?
- E o que importa, Julian? Se olvidaste o que se espalha aos seus pés, basta, por ocasião e necessidade, olhar para baixo! O vampiro meneia a cabeça confusa, pois a sabe incoerente. É suficiente concordar com Kyra e adeus receio!

Dentro era mesmo um pequeno vestíbulo, revirado nos poucos móveis e vergastado na atmosfera. Filha, apesar do destrato, convém amar uma mãe. Kyra, por esta consideração, investiga em minúcias toda nesga de sombra que alugou, por direito, o espaço. Pede mamãe. Grita aos soluços. A treva não enamora o sigilo com virtude, bem sabemos, conquanto vivam a jurar fidelidade. Posto isto, é conseqüência, assim, a presença da mãe, denunciada por choro e riso, num canto qualquer, negligenciado pela perscrutação afetada de Kyra.

- Mãe! Venha! Deixa-me socorrê-la! Pelos céus, e se esqueço os infernos é por causa da sua deferência ao perigo que corre. Mãe! Naquele cantinho, revirado ao borbotão, um bulício é única resposta, e dê-se por satisfeita, vampira.

O vampiro, por sua vez, e na inspiração natural, cediça apenas aos sempiternos mais remotos, logo nota o rogo injetado de dolo no semblante casmurro daquela que estão a procurar.

Bolacha-quebrada todos lá fora! Esta, aí no canto, é problema cru!

O vampiro, antes brônzeo, hesita. Vê o desespero teimoso nos olhos que rutilam excitados naquele escurinho. Junto ao lengalenga da criatura, conclui dois mais dois e finca o pé. Já sabe o que arbitrou e faz como aqueles senhores que nada mais querem com compostura ou outras educações. De supetão interrompe a inflamada questão que arde no coração da menina, própria do parentesco preocupado daquelas situações.

- Julian, estás louco?
- Aquela é sua mãe?
- Sim!
- Está possuída. O vampiro entrega a sentença com a voz embargada e grave.
- O que me importa! Então, destarte, seremos para sempre! Kyra, nesta afirmação, aboli toda circunstância da categoria que os afeta. A ela, ao vampiro e a sua mãe. Nem um tostão reflexivo sobre.
- Não. Tu não me entendeste. Não há adjutório possível. Matá-la-emos agora. Kyra. Jovem vampira, jovem ciência. Sem estudar, pois o tempo, a ti, também é moço, faltar-lhe-á o entendimento imediato. Pois bem, mais a frente, no curso, colherá o saber necessário.
- O que estás a falar, Julian? Deduzo insanidade? Ou seu discurso tem o lastro douto dos anos que não vivi? É minha mãe! Salvá-la-emos, isso sim! Deixe, caro leitor, a certeza lhe acompanhar; Kyra deu mesmo uma ordem!

Sabes aquela velocidade ímpar a manifestar-se naqueles que costumamos, por preguiça e comodidade, alcunharmos vampiros? A réplica de Julian, pois bem, ao imperativo categórico da noviça. Embolaram-se, o vampiro e a energúmena senhora, em luta cruenta e copiosa. Kyra a tudo tremia. Julgo-lhe com o espírito em lassidão solene, sem forças para reação alguma. E estava certo, preciso concluir. A assuada entre os dois azedava a cada soco e pontapé, a cada furo e rasgão, uma vez que sabiam a morte o desenlace da prebenda. E não desapontou-nos o vetusto. Avassala, fazendo o favor de separar, com prestes golpes, cabeça e tronco. Injuriando ferinamente a vampira que foi ter com o morto-vivo.

Olhos esbugalhados, a marejar-se, assistem a tudo. Malogrou na tentativa; salvar-lhe a mãe. Tenta motejar da pintura. Falha outra vez e chora. Chora o protocolo das perdas sentimentais. Kyra amanhece pensamentos vindouros. Mas logo desanima e cai. Julian aquiesce o drama. Os anos a pesarem-lhe nas costas espadaúdas corrigem qualquer julgamento leviano.

- Farás o mesmo com a cáfila ensandecida? ; a debutante coteja o vampiro, num tom lamurioso, incluso aí para prestar mais drama e indignação.
- São muitos; redargui o chibante umbrífero. O tom encanece-lhe, como escapando do impossível, ainda mais a pele. O que isto quer dizer, caros, só podemos especular.
- Já volto à realidade, e protesto-me a sair deste antro; insta Kyra.
- Pois bem, penso o mesmo. Vamo-nos daqui.

A depravação avulta sobranceira nas ruelas e avenidas. À onde o curso remete, o endereço parece corrompido. Os dois a estranhar-se aqui e ali, sovando, antes de levar aos túmulos, os vagabundos que insuflavam sanguissedentos, o angu-de-caroço que estava virando norma naquele cafundó. Uns quantos conseguem dar fim. Mas, sabe Julian, que o tema está perdido. Não há hora extra a dar conta da besteira toda. A carranca endurece, e amaldiçoa o dia em que botou os pés neste caxa-prego.

- Julian, lembra-te do multívago? Falo daquele, causa da barafunda? Em respeito à verdade, não ele, antes eu...
- Kyra, o néscio, pelo que nos é permitido saber, haver-se-á com qualquer infeliz nesta cidade, ou onde seu horizonte lhe esperar. Com mais, ou menos, sangue nas ventas, ele, agora, não é gravidade maior que o resto da patuléia a chuchar os pobres, poucos, que ainda sobram nesta urbe. Ademais...

Os dois danados são pegos na coincidência. A igrejinha, diminutivo emprestado à tamanho e aconchego, sorri. Daqueles oblíquos, que podem, de fato e direito, troçar-nos o espírito. E conseguem. Julian quer saber; por que não gritam mais? As carolas e o clérigo? Está, aí, a piada que enviesa da arquitetura santa? Entro sem reticência, afirma o vampiro. Kyra, logo atrás. O primeiro enche-se de zina. A segunda, de espanto. O fuzuê de gente sepultada, umas sobre as outras, lançadas ao pé do velhaco, dá forma, e substancia, mister acrescentar, à mofa que escapa-lhe os lábios. E nos olhos? Conquanto estes recebam os adjetivos que nos asseguram uma alma, podem também concluir-nos o contrário. Olha ali! Vês! É pedra! Estatua! Nada há, a não ser algidez e indiferença! Próprio dos quefazeres impassíveis! Julian rosna, e arreganha os beiços; é mesmo a etiqueta dos malditos. Mordedura pronta! Kyra, logo atrás.

- Julian, é o pulha! Veja o arrivismo!
- kyra, deixa-nos! Constrange unha - as quer por garras? - nas carnes das mãos. Quando fura e sangra, viceja vermelho. Basta para os dois. Atiram-se. Kyra já se foi. Fechou a porta. E escuta. Deus do céu!
 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Coulrofobia



A visão era assaz angustiante. Não entendia o, ou os, motivos. Sentia recrescida necessidade de fugir. De gritar o terror que lhe assaltava violentamente. Mas não eram alternativas. Era-lhe possível apenas a paralisia do pânico, acompanhada das náuseas, do ar que faltava aos pulmões, e da excessiva sudorese.

Lembrava-se, por vezes, que a explicação científica não lhe convencia. Experiências traumáticas com um individuo, ou uma representação, singular. Mas não recordava-se de tal circunstância. Amnésia seletiva? Era apenas outro argumento racional. Mas sabia, sentia, que algo faltava.

Schlomo tratava-se há muito. Sua fobia era classificada como Simples, onde o medo era circunscrito a objetos ou situações concretas. Um transtorno de ansiedade que se manifestava em situações particulares. A psicoterapia trabalhava os três aspectos do tratamento. Comportamental, cognitivo e psicodinâmico. Mas, conquanto os esforços fossem disciplinados, pouco avanço conseguia-se. Seu caso, de certa forma, intrigava os especialistas.

Garantiram-lhe a ausência. Não haveria a presença intimidadora que lhe fornecia pavor arrítmico. Schlomo era o padrinho. Esta consideração, assim, era-lhe o mínimo de respeito devido. Os pais, amigos de longa data, forçosamente, neste caso, estavam a parte do inconveniente social que acompanhava o amigo. O garoto, mesmo, completaria dez verões. Uma figura daquelas não seria tão apreciada, então, pelos convidados. Enfim, tudo correria sem os constrangimentos experimentados inúmeras vezes por Schlomo nestas ocasiões. Em tempo, era uma das partes do tratamento. Exposição controlada e progressiva ao objeto fóbico. Mas o sucesso era eclipsado pelas varias vezes em que deixara, célere, os locais onde o, ou os, via.

E todos os momentos cursaram agradáveis. Todas as etapas combinadas implicitamente, todos os acordos tácitos destas festividades, foram encenados com espontaneidade e alegria. Schlomo sentia-se leve. Natural. Comum e normal.

A noite avançava, respeitando as leis naturais que lhe regiam. Pensou fazer parte do sonho. Mas a repetição insistente do som agudo fora, aos poucos, retirando-lhe do devaneio que lhe confundia o chamado. A campainha tocava, soava, de tão resoluta, irritava. Mas, por que diabos a esta hora? Levantou-se indignado. Mesmo ciente de que, costumeiramente, tal circunstância era fundamentada em alguma situação nada agradável. Alguma coisa ruim acontecera? Atravessou, trôpego, o longo corredor que acessava a escada a ligar o segundo andar ao primeiro piso. No pequeno vestíbulo, tomado pela umbra natural a uma noite sem luar, demorou a achar o interruptor. Gritou, ante a insistência frenética do acessório sonoro: um momento, por favor! Quando a luz encheu o cômodo, seus olhos se fecharam imediatamente. Quando já acostumados a claridade, percebeu o embrulho no móvel que ladeava a parede sul. O papel de presente reluzia, fulgurante, em cima da bela mesinha estilo Luiz XV.

- Puta que o pariu!! Schlomo nem titubeou. Soltou o calão como que por instinto. A campainha cessou em seguida. Um silencio, daqueles que ensejam agouros ignominiosos, fez-se. Avançou, o balzaquiano, à maçaneta. Girou os trincos e correu a porta na direção necessária.
- Padrinho, esqueceu meu presente? Fiquei muito triste. Mas, meu amigo consolou-me. E se dispôs a trazer-me aqui para buscá-lo.
- O quê? Como? Seu amigo? Rapazinho, você sabe que horas são? Aliás, seus pais sabem disso?
- Meu amigo falou-me que sim. Ele mesmo pediu a eles.
- Que história é esta de seu amigo? Não vejo ninguém, só você. Entre, vou vestir-me e leva-lo de volta. Era só o que me faltava.

Malgrado o insólito da situação, afinal uma criança de dez anos não costuma sair de casa, sem os pais, a esta hora, Schlomo não alongou o interrogatório. Ao abrir um pouco mais a porta, para que o garoto entrasse de uma vez, Schlomo sentiu a flexão involuntária de seus joelhos, provocada pela fraqueza súbita que lhe acometera as pernas. A aceleração desvairada da freqüência respiratória, acompanhada pelo descompasso celerado do ritmo cardíaco oportunizou a descarga de sensações desesperadoras, há muito familiares.   

Encontram-no, decompondo aceleradamente, deitado em sua cama. Preso em dedos de incomum rigor mortis, um embrulho aberto que permitia distinguir seu conteúdo. Uma caixa abrigava certo brinquedo. Um boneco que representava a personagem símbolo da alegria no folclore de muitas sociedades. Infarto fulminante. O medico legista registrou, após a investigação legal da necropsia.

- Papai! Mamãe! Por que o padrinho não me presenteou? Um sorriso amarelo e tímido, carregado de incompreensão, foi a única resposta possível.







quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O Dragão na Garagem




- Mãe! Pai! Corram! Está a prestes a me atacar! Socorro! 

Quando chegaram, Ela, com olhos azeviches, e um intenso rutilar no centro, interrompeu o avanço. Ficou a olhar-me, premendo os lábios numa fina linha sorridente, com um laivo de satisfação preenchendo-lhe a careta corrompida. Permaneceu fora da área coberta pela parca luz que atingia o centro do ambiente. Mas, ainda assim, podia escruta-la em detalhes. Mamãe e papai não. Por mais que eu gritasse e apontasse. Subiram comigo, ao meu quarto. Com muito esforço, me convenceram de alucinação, ilusão de óptica, e tantas outras explicações racionais. As noites seguintes foram veiculo ao terror, vez que a lembrança daquela vicissitude demorou a perder o viço. Muito se passou da vertiginosa noite na garagem. Conquanto convencido estivesse da quimera pueril de outrora, uma incomoda reminiscência assaltava-me toda vez que necessitava descer ao local da insólita retentiva. Assim, da ultima vez que precisei lá ir, a fleuma aguardava-me. Uma epifania mesmo. Naquela data, sem tempo a gritar por préstimos de papai e mamãe, A preferida dos demônios aproveitou obstinadamente o ensejo e golpeou-me com estenia hercúlea. No estertor que alastrava-me fustigante, o ineludível, enquanto libava-me o vermelho fluido, sentenciou, lacônica: 

- Agora sou mais que um teorema, não é mesmo? 

(...)

- Papai! Mamãe! Ele grita. Então encaro-o, e meus lábios dilatam em mordaz sorriso e contumaz avidez.  

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Rancor


Tânia Souza e Victor Meloni

Dedicado a Henry Evaristo

No quarto escuro, as cortinas moveram-se lentamente enquanto leves respingos negros tocavam o solo de madeira. Na cama, um homem balbuciava em meio a horrendos pesadelos. Uma frase sussurrada entrelaçou sonho e realidade. O lago, mais uma vez o lago e sua superfície negra. Ele se aproximou lentamente. Uma neblina espessa erguia-se em miasmas de madeiras apodrecidas e pedras cobertas por musgos. O tempo todo, sentia-se como se por trás das velhas árvores olhos nefastos o espiassem... No piso de madeira, pequenas poças de água se formavam em direção ao leito. As águas barrentas deixavam sua marca, seu odor nauseante.

— Sr Black....

O homem debateu-se no leito.

— Sr Black... — A voz sussurrava, insistente.— Sr Black, acorde!

Um arrepio de puro horror o percorreu e sentou-se assustado. Sentiu a pele pegajosa de suor. Os murmúrios do sonho ainda permaneciam ao seu ouvido, chamando-o. Ao seu lado, Aimée dormia, ressonando em paz. Há muito tempo Fergus não se levantava no meio da noite, o peito tomado por presságios. A garganta estava seca e em busca de água, caminhou pelo aposento. Saciada a sede, dirigiu-se ao pátio, atravessando-o até a mureta que o circundava.

O inverno ainda não mostrara suas garras, ao contrário, a longa e atípica estiagem parecia não ter fim, mas naquela noite, tudo mudaria. Foi ate a janela e lentamente aspirou o ar da noite. A casa parecia coberta por uma luz esverdeada doentia e o céu encobria, entre as nuvens escuras um luar de envolto em vermelho, enquanto um vento gélido soprava respingos de uma chuva distante. O frio chegara com a madrugada. As nuvens moviam-se de forma assombrosa e prenúncios de uma tempestade se apresentavam.

A tonalidade expressamente laranja tomava a noite e os andares da pequena fortaleza erguiam-se intocáveis, Fergus Black observou a paisagem pelo telescópio. Algo estava chegando. Poderia pressentir nos pêlos arrepiados dos braços. Nas fundações em pedra, na madeira que rangia levemente ao vento. Nos galhos das arvores agitadas. Voltou os olhos ao confuso labirinto que circundava a mansão onde vivia. Nada além de guardas ocasionais na ronda noturna. A estrada em espiral que conduzia à casa permanecia isolada, vazia. Ninguém ousaria se aproximar do lugar fortemente armado. Do lado oposto, o lago. A superfície pareceu-lhe um negro espelho. Ao longe, a chama de um fósforo e o brilho de um cigarro. Respirou mais calmo, os guardas eram de sua inteira confiança.

De súbito, vislumbrou nas pedras o que poderia identificar como um vulto escuro se arrastando. Fixando o olhar, suspirou aliviado quando uma ave sombria alçou vôo na noite. Observou mais uma vez as escadas em espiral, preparando-se para voltar quando seus olhos foram novamente atraídos para o lago negro, que se movia tal como se estivesse sendo cortado pela travessia de um visitante desconhecido. Arrepiou-se e voltou-se pronto para atacar o dono da mão fria que lhe tocava o ombro. Era apenas Aimée, a Sr Aimée Black, lhe abraçando:

— Volte para cama amor, está frio.

Olhou mais uma vez ao lago, que agora permanecia tranquilo. Vencendo a inquietação, voltou para seus aposentos e, tentando não se lembrar dos pesadelos, logo adormeceu.

No lago, o corpo esguio atravessou as águas escuras. Lentamente o vulto tomava a forma de uma moça que escalava as pedras, o vestido longo e negro desfazendo-se ao contato com a rocha cortante. Os cabelos pingavam e a pele era escura como a noite. Entre as sombras, tudo o que se via era a água vencendo a terra seca, caminhando lentamente em direção a mansão. A voz era baixa, feminina, sussurrada entre desespero e sedução.

—... Sr Black! Venha Sr Black!

Ela estava em meio as águas. Os longos cabelos ruivos e ondulados. A pele apresentava-se úmida como se coberta pelos mesmos musgos que espalhavam-se nas pedras. Black aproximou-se do lago. Um véu enegrecido e transparente se espalhou na superfície. Procurou, e suas mãos encontraram um galho na beira do lago. Estendeu-o e tentou puxá-lo, mas quando estas a tocaram, a renda apodreceu e retornou ao negrume das aguas. Ousou entrar, em direção a ela. Quando vislumbrou um sorriso, ao seu redor o sangue espalhou-se sob o espelho liquido, como raízes rubras, cobrindo a superfície escura pela cor vivida e sanguinolenta.

Sua imagem fornecia os ensejos do desespero imanente. Aquele que opugna todas as virtudes, onde o vicio escarnece da hipocrisia inerente a todas estas, sem exceção. Este paroxismo de aflição perpetrava-lhe o cartesianismo irreparável da alma e do corpo. Fergus serviu-se do medo inflexível, sentindo o amargo, o azáfama, forçoso da sua presença. Perscrutou as margens a emanar, recrescidas, o vapor da condensação e sentiu o conluio dos vapores, dos calores, com o malsão. O álgido que lhe cobria à cintura, tilintava-lhe os sentidos. Entorpecia tentativas de lograr a razão naquele endereço. A sobejar em laços encanecidos, misturados ao púrpuro visguento do liquido a dominar o recurso natural, em tranças que iam em dança lôbrega, abraçando membros enregelados, tronco em expansão, de um parco espírito dessorado pela vívida intenção do espectro.

- Sr Black, por que não atendeste meus desejos? Onde guardava sua máscula natureza nos dias quentes que insistiam em oferecer-me? Sr Black, onde estou agora que lhe quero mais? Sr Black, posso?

Faculdades existem para guiar-nos num mundo onde idéias e seu concreto são necessários. Onde, então, se um desvio obrigatório se apresentasse? Ali, Fergus Black encontrava angustia e dor, sufoco e rancor, miséria e terror. Ali, Fergus Black quedou-se no lutulento resultado das suas escolhas. Da sua pusilânime escolha.

(...)

As sentinelas percorriam os perímetros. Escrutavam as trevas que, em deliberação, escondem-nos as entranhas. O silencio fazia-os sossegarem. Seu senhor estava em segurança indubitável. Nada passara por seus diligentes olhos. Nada escapara a seus atentos ouvidos. Um ou outro mamífero silvestre. Algum réptil ignóbil. Nada mais. A suave fumaça deixava, ominosa, o fumo que lhes regozijava a carne. A lhes intumescer a garganta cheia de favores e imprecações. Alguns seixos jogados ao lago. Uns repetiam sua trajetória, batendo algumas vezes no espelho d’água. Outros afundavam sem tal peripécia. Todos “a” atravessavam. Os guardas? Nada enxergavam, a não ser um horizonte que se ia, tomado pelo negrume breve. Antes destas trevas, suspenso na superfície glacial, o apodítico destino daqueles que zombam do extraordinário. A sentença cabal dos corações cobertos em chagas, que se resumem no conspícuo aferro da vingança constrangida. Pelo quê? Pelo rancor que crispa todos os espíritos dissimulados pelos sofismas da virtude máxima. Créscimos do que outrora constituía a matéria de Fergus Black, nadavam no espelho devoluto do lago energúmeno pela expropação da bela Reed.

(...)

- Fergus? Querido? Novamente encarando a noite, meu amor? Retorne ao nosso leito. Venha aquecer-se, senão pretende resfriar-se.

A silhueta do homem, desenhada contra a janela pela forte luz da noite que impera, permanecia estática. Em silêncio imperturbável. Aimée toca o lado do cônjuge. Pede sua presença novamente, e recebe o relevo inconcusso de outro corpo a vizinhar-lhe. O músculo régio em seu peito dispara vertiginoso. É obsedada pelas mais viperinas sensações, pois sabe-se em últimas de tempestuosa presença. Vira-se reticente, e encara a face encovada, dona de cabelos encarnados e olhos trêfegos, ávidos por supliciar seu objeto.

- Sra Black, por que deputaste seu senhor a tal empresa encarniçada? Sabia-o de espírito entibiado. Entendeste, desde sempre, minhas razões. Sra. Black, por que, então, me julgaste esta frascária? Sr Black, onde estou? Ajuuuuda-meeee...mãeeee....

(...)

Encontrar a maldade que nasce túrgida da veia imperscrutável de atitudes ominosas é, com freqüência, assaz determinante. E esse recrescer que não ouve suplicas de arrependimento arrebata percuciente todos aqueles que deferiram a natureza do castigo impensado. A doce e bela Reed. A menina que fez da paixão sua lápide ignara. Agora repousa sentenças entenebrecedoras àqueles que não a entenderam. E cobra as dores do espírito, em juros da carne.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Aptidão


Sabe você o que pode sublimar a sanha? Tranquilize-se, caso a resposta seja um tonitruante não! Pois, em respeito à verdade, sendo o primeiro valor entorpecido pelo relativismo registrado dos vícios e das virtudes, ninguém o sabe. Forçoso dizer, ninguém que sofra da mesma ascendência biliosa que me forma. A natureza inexorável da fúria que reclama inopinada!
Se, apenas por um átimo, nada além disto, soubéssemos existir tal conhecimento, mesmo descansando sob sombras d’algum consciente, o furacão desolador da esperança já haveria de nos ter manifestado seus irreconhecíveis sintomas. Mas, se o são, como sabe-los? Cruciante armadilha filosófica a nos assombrar durante todos estes anos onde a matemática se perde na tentativa de mostrar sua ciência, e apenas o saber originado da mesma espécie fornecer-nos-ia o alívio a inicial pergunta. Nós, filhos da sofreguidão, não o temos. Só conjeturamo-lo. Assim, a sensação da resposta, ou melhor, das respostas, é inescrutável ao preço que costuma cobrar a carne, o sangue envolto na dor da avidez.
Sobra-nos? Dentes que se querem presas. Unhas que reclamam-se garras. Vísceras que proclamam-se valhacouto iniludível. Uivos que se afirmam trovões, arautos do mal inescapável. E, para questão primeira, nada. E esta falta recrudesce as afirmativas do inicio deste parágrafo. E legaliza, sem apelações, aquilo delas resulta. Viceja assim a vontade imiscuída no cerne da necessidade, que vive a alimentar o mecanismo perpétuo a fustigar as entranhas. Neste momento intensificamos o perquirir à pergunta que abre este breve relato. Mas, no confronto do recrescer, a dúvida enfraquece na sombra do desejo, na força da vontade. Aquele que não tergiversa na hora da refeição. No momento de mastigar e engolir. Então, sobra-nos? Aceitar aquilo para que somos aptos, onde a seleção nos quis.
Correm, bufam, gritam, choram. Encalistra-me o desespero irrefreável. A completa ausência de espírito. Só o medo dirige-os. E este está sempre perdido em sua direção. Conquanto necessário, faz vítimas estúpidas, caso não veja que pede, ele, por enfrentamentos. E nunca o fazem. Sabe, alguém, o que pode sublimar a sanha? Ninguem escuta. As pernas em rápido e desordenado deslocamento é a resposta. Errada. Atiça-me, só. Nada mais. O que fazer? Resolvo este conflito da única, até agora, maneira que sei. Que conheço. Ataco. Rasgo e mordo. Mordo e rasgo. Mastigo e engulo. Sugo. Uivo. E ouço. Sempre. A mesma ladainha. Esqueço a pergunta. Estou tranqüilo com a resposta.