Seus olhos estavam permanentemente injetados em um carmim[1] desconcertante. As pupilas, afuniladas em graves fendas negras, que nunca se dilatavam, acabavam por emprestar o perverso espetáculo àquele cenho insano.
Lúdico era, provavelmente, uma das mais esperadas atrações da Companhia. Suas aparições não costumavam encontrar rival, no que concernem as expectativas de aplausos assustados e excitados. O humor negro e encarquilhado de suas apresentações arrebatava os ávidos expectadores, que o seguiam hipnotizadamente durante seus autos encharcados de estro[2] trevosos. O sangue (faziam crer cenográfico) usado nas absurdas e obscenas piadas que envolviam esquartejamento, dilacerações e outras demonstrações insensatas de horror escatológico, convenciam inapelavelmente os incautos que se esparramavam na platéia. As palmas vigorosas, viscerais mesmo, faziam Lúdico vibrar, tremendo de excitação ao elucubrar todos aqueles imbecis em suas suaves mãos enluvadas em branco e salpicadas intensamente da intensa viscosidade vermelha, a mercê da criatividade que eternamente lhe obsedava[3]. Chegava-lhe, ao ponto, de certa textura assaltar o paladar, acompanhada do cheiro ferruginoso que lhe atiçava faustuosamente as entranhas.
***
O dono da Companhia, Sr. Claude, tinha-o em grande estima. Considerava um dos seus mais importantes membros. Não, sabia, na verdade, que Lúdico era o carro-chefe do vulto financeiro que chegava ao Cirque du Freak em cada uma das suas apresentações. Quando seu avó, o fundador da companhia, apresentou-o ao seu pai, e este a ele, sabiam que Lúdico faria a empresa próspera por muito tempo, mais do que qualquer geração pudesse acompanhar. O avô de Claude, o velho Deveroux, o havia encontrado em uma das paradas da Companhia, num miserável burgo ucraniano, a caminho de Kiev, acorrentado a uma grossa coluna de ferro carcomido, que possuía, amarrada sem cuidados, próximo ao seu topo, uma barra em sentindo horizontal, emprestando à construção precária a arquitetura do símbolo máximo cristão.
O povo local costumava alcunhar-lho Upir Lichy[4]. Fascinado com as possibilidades vaticinadas para a Companhia, Deveroux, depois de muito ouvir, dos vilões, sobre a maldição que lhe acompanharia caso insistisse naquilo, facilmente convenceu os responsáveis pelo cárcere a ceder Lúdico, por uma sedutora quantia em espécie.
Negligenciando a censura dos aldeões, Deveroux relaxou na segurança com sua nova aquisição. E em sua primeira pousada, Lúdico explicou a ele, e a todas as outras atrações, por que as antigas correntes eram necessárias. Pela manhã, sob um céu enegrecido pelo inverno local, debruçado sobre um grande naco, mastigava sofregamente aquilo que se veio saber, depois, ser mademoiselle Gabrielle, a “Mulher pela Metade”. Protestos furibundos quase deram por certo o fim de Lúdico. Mas, com sua retórica beirando o impecável, Deveroux convenceu-os do triste condicionamento ao qual Lúdico fora exposto, e que alterá-lo era uma questão de oferecer-lhe a atenção correta. Os estultos vilões não o entendiam, argumentou. Assim como o mundo não compreendia cada um daqueles que ali estavam, na Companhia. Deveroux os acolhera. Eram uma família. Lúdico era o novo membro desta. Precisava, tão somente, dos bons exemplos que ali pululavam[5], admoestou.
O velho Deveroux, após muitos anos de observação, entendeu a natureza do seu filho mais jovem. Soube com o que realmente estava lidando, e o potencial que acompanhava tudo aquilo. Adestrou, com esforço hercúleo, os instintos de Lúdico. Soube que este era capaz de falar, depois de um silêncio duradouro. E, conquanto muito tempo houvesse passado sem uma única palavra, sua oratória era impressionante. Deveroux explicou-lhe o funcionamento das insólitas e incompreendidas engrenagens da Companhia. Lúdico aprendia tudo numa velocidade improvável, embora escravo inescapável das suas tendências inatas. Idéias docemente terríveis foram sugeridas às suas apresentações. Deveroux espantava-se, pois eram crudelíssimas ao tempo em que faziam gargalhadas, tão inacreditavelmente surreais. Bastavam uns ajustes aqui, outros ali, e a maquinaria do espetáculo garantir-lhes-ia público jamais presente. E, ninguém, em sã consciência, especularia mais do o que o necessário sobre a verdadeira ascendência da atração. Mas o passado, quando impossível de escrutar[6] racionalmente, cobra o preço da ignorância em saber tratá-lo. O velho Deveroux, seu filho, e agora o seu neto, novo administrador, Claude, tropeçaram na verdade daquilo que os cegou. Não importava quem era Lúdico, e sim o que ele era. E isso não mudaria com novos ambientes, novas sugestões. Há muito, pois, resignaram-se, Claude e as outras atrações, à respeito disso. Todos, agora, o protegiam da incompreensão do mundo.
***
Na belíssima cidade do Rio de Janeiro, o espetáculo armara-se, depois de todos os trâmites legais, num extenso terreno baldio, próprio, informaram-se, para tais eventos. Era mesmo apropriadamente pertinente. À noite, a marginal do lugar era formada por um grande perímetro circular, com alguns postes incrustados no chão batido, salpicando luzes bruxuleantes[7] que não alcançavam a enorme tenda. Em seu interior, um número confortável de cadeiras formava arquibancadas que se dirigiam curvas em direção ao palco, formando um U engendrado[8] para explicitar a visão de todos os expectadores. Uma arquitetura perfeita para os autos[9] dos bizarros inquilinos da Companhia. A platéia sofria ávida pelo inicio, conquanto protestos acalorados houvessem acontecido antes da instalação do circo. Estes reprovavam, como há muito já se fazia, a exploração financeira das aberrações que ali viviam. Necessário lembrar que tais celeumas somente recresciam[10] a curiosidade dos possíveis clientes, alimentando a propaganda necessária ao espetáculo. A primeira apresentação naquele país, chamado Brasil. E, ao que sugeria o movimento, o maior publico da Companhia em todos esses tempos.
As luzes surgiram no centro do palco, regurgitando a atmosfera lúgubre por entre suas lentes pintadas para tal tarefa. A figura imponente de Claude Deveroux se fizera como um truque de prestidigitação[11], instando o público a aplausos convulsivos e assovios trovejantes. A música, em harmonia com sua voz grave e sentenciosa, encenava o drama ideal àquilo que ansiavam todos ali. Os olhos do Monsieur rutilavam[12], sôfregos na sua acostumada conquista. As críticas, tão remotas quanto as lembranças que o assaltavam, não tinham valor algum naquele momento. As palmas, antes mesmo que seus filhos se fizessem presentes, sepultavam todas as reprovações ao seu trabalho. Claude sorriu, expondo dentes de um branco impecável e satisfação infinita.
Lúdico era a ultima das aparições, sempre. Urravam, os expectantes, à medida que chegava o momento de sua apresentação. Era uma lenda deliciosamente cultivada pelo incomum dentre tudo o que era insólito na Companhia. Surgiu suave, como se tocar o chão lhe fosse impreterivelmente desnecessário. Ouviam-se garantias de que flutuava até o ponto cardeal, no palco. Um intenso facho explodiu-lhe na face alvíssima, entregando a expressão serena, imiscuída[13] de um ameaçar latente. As centenas de olhos que o acompanhavam saltaram das órbitas, seduzidas em espanto e admiração ignorada. Bastou para que um silêncio não combinado se rompesse em manifestações guturais de euforia e aplausos.
Lúdico permanecia numa imobilidade pétrea, que beirava o absurdo a uma criatura considerada viva. Como se a delonga entre a expectativa e o impacto fosse violentada sem pudores, as longas e pesadas cortinas, de um veludo negro azulado, posicionadas logo atrás, abrem-se sorrateiramente, deixando escapar um longo silvo sussurrante enquanto avançam as corrediças. Da abertura produzida, em forma rasgada, expulsa-se, presa à um claustro de madeira enegrecida, torneada em cruz, uma imagem dulcíssima e excitante. Uma bela amazona negra, de membros robustos e alongados, tônus vítreo e pele cintilante, coberta por uma parca malha que mal lhe escondia a vergonha. Seu rosto forte e angelical, esculpido à perfeição dos detalhes, empresta órbitas sedosas a um olhar que encara Lúdico, à guisa sardônica[14]. Mais aplausos correm, desabalados e frementes, as fileiras que a tudo assistem. A estrutura range à medida que se deixa empurrar, por dois desfigurados homúnculos[15], de inacreditável existência, em direção ao centro do palco. Deixam a cruz de madeira em frente à Lúdico, com a venusta[16] amazona encharcada em suor e uma espécie de lascívia constrangida.
As caixas de som, onipresentes, rufam tambores, numa agudez aflitiva, correndo desesperadamente ao paroxismo da sua intenção, e então estacam. Param abruptamente, deixando Lúdico e a beleza moura a facearem-se. O público prende a respiração, em conluio com o meio sorriso que deixa o esgar formado suavemente nos lábios premidos da atração principal. Lúdico permite que seus olhos façam o mesmo movimento. A amazona treme libertinamente, e os olhos reviram-se nas órbitas alvas, imaculadas. Estrias negras nascem, de imediato, revoltosas no mesmo endereço de Lúdico, recrudescendo o contraste entre o carmim da esfera e seu negror dardejante. Da platéia estática, um grito de identidade quebra a tensão da cena.
- Rita! É a Rita!
Volvem-se todos ao rapaz da sentença. Outro silêncio, interrogativo desta vez, se faz. Como não há resposta, o mesmo que gritara, volta a sentar-se, apontando, rijo, o indicador ao casal no palco, e cala-se. Novamente concentram-se no seguir. Lúdico, aparentemente alheio à breve balburdia, aproxima-se da, agora, tesa mulher e estende-lhe as mãos, em longos dedos finos e unhas nervosamente aduncas. Corre o rosto liso, ternamente, acariciando os centímetros perfeitos da negra tez. Detêm-se subitamente, e um ulular ensurdecedor, misturados a risos lúbricos, arrebenta por trás das cortinas. Lúdico cerra os magros dedos, deixando apenas o indicador estendido, e corre-o reticentemente pelo pescoço da sua companheira de palco. Quando atinge o macio espaço entre a junção das clavículas - aquele orifício convidativo - punge-o visceralmente, deixando o jato negro-carmim espirrar-lhe feroz e quente em toda a face. Ohs de espanto e incredulidade saltam por toda a platéia. As trovejantes manifestações de antes cessam em deferência à apresentação da principal personagem. A bela amazona engasga no próprio sangue, nas tentativas de protesto, deixando apenas seus olhos arregalarem-se em pavor e súplica.
Ainda que fosse o suficiente, nada faria os expectadores preparados para o ato final. Lúdico rosna pulsantemente e atira-se na ferida aberta. Suga sôfrego, o liquido a espargir, tremendo de satisfação. Delonga[17] por instantes que se congelam nas expressões daqueles que o assistem. Ao terminar, a cabeça do que foi uma exuberante mulher, agora murcha e enrugada, pende sob o pescoço flácido. Os olhos inexpressivos, virados nas órbitas, parecem rogar uma explicação. O público espera por alguns segundos, alguma outra surpresa, e, então, expandem-se ruidosamente numa salva alucinada de palmas e gritos. Nunca viram – é possível ler-lhes o pensamento – tamanha veracidade teatral. Uma voz ligeiramente familiar, em sustenido com os aplausos, berra do mesmo lugar.
- Bravo! Rita! Bravo!
A pobre não responde, obviamente, mas seu elogiador está convencido da sua verve artística. Crê inexoravelmente na competência da sua atuação e na sorte de poder participar do espetáculo. Os homúnculos reaparecem e retiram, vagarosamente, a estrutura do palco. Lúdico encara a extasiada platéia e curva-se, agradecendo como sói[18] os artistas. Outra explosão de palmas e assovios acompanha a agradecida retirada do artista. O show termina com todas suas incomuns estrelas no púlpito, de mãos dadas, agradecendo solenemente a presença dos expectadores. O Rio jamais vira espetáculo como aquele. Sui Generis[19], respondiam uns aos outros, durante a saída. Em uma destas conversas, alguém retruca.
- Mal posso esperar para falar com Rita! Ela vai me contar todos os detalhes! Ah, se vai!
O circo deixa a cidade durante a madrugada. Não há mais o que se fazer ali. Em seu escritório, Claude meneia a cabeça positivamente. Um sorriso constrangido, mas conformado, é entregue a Lúdico, logo a sua frente. Não falam nada. Não é necessário. Os jornais sensacionalistas aproveitarão a passagem da Companhia para explorar as lendas que a acompanham, há muito. E, negligenciarão, junto às autoridades, as mortes pouco comuns – corpos exangues[20] encontrados nas proximidades do endereço temporário do circo – que, tão somente, coincidiram com a estadia do Cirque du Freak.

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