sexta-feira, 29 de julho de 2011

Resenha: Histórias para não dormir

 “Histórias para não dormir: dez contos de terror” (editora Novo Continente, 2009), reúnem autores clássicos deste gênero literário (ou subgênero, como preferem alguns) a outros com pouca tradição, eu diria, neste universo. Muitos contos são extremamente famosos, como é o caso do clássico “A pata do macaco”, do inglês W.W. Jacobs, o “O barril de Amontillado”, do norte-americano Edgar Allan Poe, uma referencia indiscutível da literatura fantástica mundial, e “A galinha degolada”, do uruguaio Horácio Quiroga. Todas as histórias, entretanto, alternam-se, como muita competência, na modalidade de terror que oferecem ao leitor sedento por narrativas incríveis e, muitas vezes, críveis, sim senhor, para nosso espanto ingênuo. 



Sredni Vashtar (Saki): pseudônimo do britânico Hector Hug Munro, é considerado um dos mais talentosos escritores da sua época (1970-1916), com suas histórias possuindo forte tendência crítica aos costumes sociais. Neste conto, nos deparamos com a história do menino Conradin, órfão e de saúde fragilíssima que, aos dez anos de idade, tem uma vida marcada por restrições opressivas da parte de sua prima autoritária, e guardiã, com quem mora e a quem odeia com a mais desesperada sinceridade. Um dia encontra num balcão de ferramentas abandonado no quintal da casa, uma enorme gaiola que abriga um grande furão. Como a solidão esmagadora, somada à truculência da tutora, precisava de uma válvula de escape, Conradin elege o mamífero como seu amigo. Mais, o eleva a condição de divindade. E, durante os vários rituais estabelecidos com este pequeno deus, a personalidade castigada do menino vai dando vazão à fantasiosos pedidos de salvação. Bem, vou parar por aqui, pois o desenrolar é menos óbvio do que parece. “Sredni Vashtar, seus inimigos pediam paz, mas ele levou-lhes a morte”! Fazem idéia do que os espera, não é mesmo?

Os cachos da situação (Pedro Bandeira): o mais contemporâneo dos escritores aqui reunidos e, pelo que indicam suas outras obras, o menos íntimo do universo fantástico do terror. O excelentíssimo chefe do executivo de uma burlesca cidadezinha interiorana tem sua carreira política (é claro) constantemente achincalhada, e ameaçada, pela oposição, em virtude dos modos do seu filho. A basta cabeleira deste rapaz será o motivo principal de todo o celeuma envolvendo a pequena sociedade, com a hipocrisia natural do ser - humano sendo o combustível para uma decisão estúpida e inconseqüente do conservador e autoritário prefeito. Um final muito, mas muito, macabro.

A mão do macaco (W.W. Jacobs): Não vou escrever muito sobre este clássico. Quem ainda não o leu, não sabe o que a literatura de terror pode oferecer. Um pedido, mesmo que vestido de boas intenções, à algo que você não conhece, pode lhe render as conseqüências esperadas? O conto está disponível na rede, é só garimpá-lo e encontrar a resposta.

Por que matei o violonista (Ernani Fornari): Um escritor é contratado para produzir uma história sobre um incêndio em um teatro e, na narrativa, dá um trágico fim à personagem de um genial violonista, durante o concerto que lá acontecia. Quem cria pode ter alguma responsabilidade sobre sua criatura? A resposta é sim? Bem, para o autor essa é uma questão bem específica e com um final tendo uma única possibilidade. Prepare-se!

O barril de Amontillado (Edgar Allan Poe): outro clássico memorável da literatura fantástica mundial. Na narrativa, um homem confessa friamente seu desejo de matar um conhecido que o insultou. Que tipo de homem é este? Meus caros, o gênio (Poe, é claro) nos arrasta para o domínio de seu oficio nesta história surpreendente!

A caçada (Lygia Fangundes Telles): a realidade se mistura ao improvável na vida da personagem principal que entra em contato com uma velha tapeçaria, que começa a lhe dar lampejos arrepiantes e aflitivos, em dejavús repletos de insanidade. Ou não?

A galinha degolada (Horácio Quiroga): A expectativa assassinada pelos fatos pode causar tragédias insuperáveis? Quiroga responde sim! Um jovem casal frustra-se repetidamente com o azar que acomete a saúde mental dos quatro primeiros filhos. Até que, numa ultima tentativa, conseguem conceber uma menina que “foge” à “maldição”. O descaso deliberado com o quarteto de idiotas (assim os trata Quiroga, sem pejorativos) acaba por envolver-nos na negligência moral que se transformará num dos mais terríveis finais que já li.

Os olhos que comiam carne (Humberto de Campos): um reconhecido escritor fica cego, de repente. Desesperado, submete-se à uma nova técnica que, uma vez considerando os motivos que o levaram a perder a visão, garante-lhe restituir a vista. E assim é. Mas, alguma coisa não está certa, e o abençoado pela cirurgia não pode conviver com seu resultado. Rápido, sem embromação, o autor nos leva a um passeio vertiginoso e, o mais surpreendente, sem saber por onde estamos indo. E onde vamos parar. 

Vento frio (H.P. Lovecraft): junto com Poe, este rapaz é considerado o suprassummo da literatura de horror, ou terror, como preferirem. Todavia, o conto em questão é (considero) o menos talentoso dos que tive o prazer de conhecer. Mas, ainda assim é Lovecraft. Numa pensão, há um quarto que exala, constantemente, um cheiro insuportavelmente fétido. Um jovem rapaz decide investigar e, alem do odor, descobre que a temperatura é absurdamente baixa naquele recinto. A causa disto lhe trará uma difícil situação: enlouquecer ou manter a lucidez?

O capitão Mendonça (Machado de Assis): o bruxo do Cosme velho, como era conhecido nosso maior escritor, colocou um sujeito simples numa situação bem insólita, neste conto magistral. Um encontro, no teatro, com o capitão que dá título à história, leva um jovem a uma viagem angustiante a recrescer em aflição na medida em que a narrativa avança, fazendo-nos crer que o absurdo pode ser muito real, bastando apenas, para isso, que sejamos levados por uma habilidade inigualável em contar histórias.

Fica a dica, galera. Se este livro aparecer-te à frente, agarre-o!    

  

       

1 Resmungos:

denise bottmann disse...

olá, victor: estou fazendo um levantamento das traduções de edgar allan poe no brasil. por gentileza, saberia me dizer se, nessa edição do barril de amontillado pela novo continente, por acaso consta o nome do tradutor?

obrigada!
denise bottmann