sexta-feira, 11 de março de 2011

Émile

Ultima parte da trilogia inciada com "Amor, verbo intransitivo", e "Claire". Émile, apesar da irresistível tendência de entregarmos tal alcunha às mulheres, é  nome masculino tanto quanto, como sói acontecer em países outros. Faze do vampiro, assim, a última intenção deste romance, dadivoso leitor, ou leitora. 

“O amor está em quem ama, e não em quem é amado” (Platão)


Meus lábios estão secos, demasiadamente secos. Sinto a violência do desidratar ofuscar minhas resoluções, num conflito pujante. Peço sua ajuda, estendendo as mãos em suplica, mas ela se mantém inflexível. O brilho feérico em seus olhos me acusa, numa tentativa notável de servir-me com sofreguidão, apesar. Quão basbaque deve me considerar, mas ainda assim deixa escapar uma paixão candente. As teclas do piano me atingem o cerne e vibram em minha alma atormentada, amaldiçoada. O som que escapa é conivente com minha recusa. Ela alcança a frágil carne caída e me oferece mais uma vez. Olho o sublime em seu gesto, um excelso que brota do âmago mais insondável do coração, agora contristado, que bate no seu peito álgido. Há tempos fiz uma pergunta. Respondeu-me apontando o horizonte inalcançável, mesmo à nós. Mas, queria ela, com isso, me alentar, demonstrando as frementes maravilhas do nosso novo alvedrio. Não entendi, na época.

Aproxima o banquete, ainda quente, da secura instalada na parede intumescida pelo desejo cruciante. Há muito sei do deletério que a espera demasiada pode causar. E não é preciso muito. Investiga meus olhos contristados e aquiesce. Seu beijo na tez em danação cria o sulco que faz o aroma invadir-me, e o dantesco desejo do cruor vence a resistência esconsa que teimava em debelar minha modificada natureza. Ao olhá-la, vejo suas pupilas de beleza estreme dilatar-se, com sua respiração em célere compasso, grassando furiosamente seu sangue pelo corpo dono de ângulos que libam da mais perfeita forma. Agora, duas criaturas seduzidas pela fome incontornável, sorvem em irascível desejo, em inconcusso conúbio, em obstinação inexpugnável, o volume abrasado do escarlate que corre nos túneis que se firmam de maneira definitiva e profunda naquela ascendência de estima díspar à nossa sede. Um arquejo selvagem faz a interrupção atilada. Nossos rostos se tocam. Fecho os olhos e vejo um arrebol tomar-me. Ao abri-los, ela está respirando com dificuldade, sua boca tocando a minha, com o liquido denso e pegajoso, em seu encarnado, a unir nossos lábios. Uma efervescência voraz nos assalta e encontramos uma paz fulgente. A volúpia que nos acomete neste momento nos cobre com as trevas envaidecidas de minha, enfim, resignação. Sou obsedado por todo tipo de causa e efeito, que me mergulha nas sombras faustuosas da minha hodierna condição imortal. Gosto que não fenece. Sede sempiterna. Vontade diuturna. Querer ígneo, tamanha força irreprimível. Levanto-me, forte, inexpugnável. Impávido no mármore inescapável de minha sanha beligerante, num beneplácito que clama colérico, assentindo o predador absterso. O feroz sói indelével.  

Ajoelhada, ela parece não crer no aberrar que me atingiu. Ainda abraçada à presa desfalecida, como quem precisa de uma garantia a mais, para não se perder na fugaz impressão que tantas vezes lhe fiz sorver. Imbuído de jactância negrejante, sou prementemente lacônico:

- Claire, seus temores, acerca de minhas angustias sobre a condição humana e nossa natureza sedente, encontraram o ocaso.

Olhos vultuosos perlustram-me com aflição sombria, ansiosos por beber minha alterada essência, decididos a inumar, para sempre, as reminiscências de minhas passadas considerações.

- As grandes dores fazem com que as menores mal sejam sentidas e, na falta delas, até o menor desgosto nos atormenta. Claire, meu abismal amor, certo Shopenhauer sentenciou, certa vez, tal moral. Aceito-a, em nome do que nos une, pujantemente! Que a amoralidade de nossa espécie seja a minha, a nossa aliança.

Claire me envolve num osculo de estenia crônica, entorpecendo-nos, selando a vontade que irá, daqui em diante, recrescer irreprimivelmente.         

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