sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Claire

Continuação não linear da história ""Amor, verbo intransitivo!". Este também encontra-se nas páginas do Antologia do Absurdo - Contos Fantásticos.



O
lhos enegrecidos apresentam as trevas que me cobrirão. Um feroz entenebrecer que jamais será esquecido. Uma espécie de estrépito que me acompanhará perene, lembrando-me da nova origem. Minha antiga essência agora definha aos poucos. Contemplo seus traços feéricos, deixando invadir-me por uma alegria faminta. Ali, remir a culpa de tudo, naqueles lábios, me faz exultar. Suas pálpebras pesam no brilho daquelas íris fulvas, e num frêmito sou sorvido para a escuridão ineludível. 
 Claire. O presente de uma eternidade onde a história do passado se perdeu nas reminiscências confusas da sua inefável beleza, de seu impertérrito nascer. Onde a existência do hodierno procura aquecer-se nas vantagens do possível, e as possibilidades do futuro não recalcitram aos seus desejos. Claire. Um nome a lancinar-me num regojizo de anseios incontroláveis. Claire. Que me fez abjurar dos sentidos tolos, limitados. Que me fez, em total beneplácito, expulsar a jactância ignorante de minha antiga natureza. Que, num bramido apaixonante, baniu as reticências conspurcadas de uma raça imperfeita. Uma ligação insistente, alimentada pela força crônica, efusiva, de uma estirpe incansável, inconcussa no seu destino. 
A dor é insuportável. Controlá-la é algo tão, quanto. Meus processos orgânicos mostram uma estranheza de proporções sem paralelos na experiência humana. Vejo os dias se acumularem, intensificando-a, num assustador recrudescer que parece não ter fim. Enlouquecer parece ser a única coisa sensata a fazer. Paradoxal, não? Talvez seja a selvageria desta natureza a criar esta confusão. De uma coisa eu tenho a mais absoluta certeza, este desejo nunca será anulado. Mas o que estou dizendo? É lugar comum, tal afirmativa. Só há uma maneira de aliviar a angustia voraz. Sim, eu quero fazer o jogo! Asfixiar-me! Afogar-me! A liberdade do vício, dentro de mim! Fora de mim! Não quero mais enterrá-la! A perfeição do corpo. A perfeição da alma, mesmo que esta já, imperiosamente, iníqua na sua escassez absoluta.
Minhas mãos apertam com vigor o músculo potente que luta por manter suas células impolutas. Que resiste à tentativa de expugnar seu emaranhado de fibras a lhe conferir uma férrea consistência. Mas a intensidade, que pode ser observada nos nós de meus dedos, entrega a hipóstase. Estou a brincar, apenas. Olhos vítreos, ígneos, afirmam que a sujeição será lacônica. Vejo o medo a ser desenhado em seu rosto perfeito, dando-lhe contornos sombrios. Chego mais perto e sorvo seu hálito impregnado de uma fragrância inebriante, opugnando meu apetite, há muito edaz. Ela, numa espécie de prélio derradeiro, apóia as mãos sobre meu peito e pespega um empurrão. O beijo arde na tez obsedada pela fome irreprimível, pela sede imane, num fragor flagrante. Hausto com vigor premente o abrasado e doce fluxo, numa contenção incerta do seu limite. O corpo freme em meu, agora, abraço. Pretendia deixar o fulgor da necessidade alastra-se progressivamente, como um dissoluto habilmente o faz diante da sua. Espasmos já começavam a fustigar meu corpo hirto, grassando num não manifesto obumbrar, inevitavelmente inóspito. Claire oferece, então, o paládio, numa clara demonstração de ser eu, por motivos latentes, seu nepote. 
- Meu doce menino, há óbices que não podemos eliminar da nossa conduta. Estarei sempre contigo a ensinar-lhe as peculiaridades de nossas ineludíveis vontades, do precípuo da nossa perene existência. Mas é necessária tua colaboração. Ainda tens, bem sei, pouco alvedrio. Todavia, esforça-te em debelar o imprudente consumo. O crasso erro torturante que eclodirá em um draconiano entibiar, e culminará em seu improfícuo fenecer.
Largo o objeto que me fez extático, com o sândalo ainda a exalar por seus poros agora tão íntimos, com a saliva ainda se apoderando, sem descanso, da minha vontade. Travo um combate de beligerância absurda com as palavras pujantes de minha salvadora. Algo em mim alimenta uma mistura desordenada e irascível. Uma confusão que parece apontar uma única certeza, em brasas, tão forte se apresenta. O aferro causticante da fome! Parece ser a única aliança com o fusco incoercível do qual não posso mais escapar. Do qual não quero escapar!
Aponto para o horizonte. Espero uma dedução daquilo que pretendo com tal. Claire perlustra a direção, entendendo o denso esquadrinhar do qual tento retirar um feroz sentido. Encaro-a, dissecando cada ligação que suas expressões, talvez, possam fazer com aquilo que procuro. Um olhar resplandecente, num momento fugidio, excita-me de possibilidades! O sorriso impregnado de fleuma mostra o ilogismo do tamanho imperscrutável da nossa nova seara. Claire entrelaça seus dedos aos meus, e aponta para a mesma direção. Quero estar pronto.       

***

1 Resmungos:

Rosa Mattos disse...

Magistral. Sensual. Envolvente. Irretocável.

Já havia lido este, assim mesmo li novamente. Tem tantas frases nele que me transportam de plano. Ele morre e remorre e nasce e renasce.

Claire fez gato e sapato com ele. E ele gostou e quer mais. Não sentiu medo? Vai ser devorado feliz da vida só porque ela é bonita. rs