quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Amor, verbo intransitivo!

Posto um conto dividido em três partes, que está no meu primogênito Antologia do Absurdo (vejam a resenha feita por Tânia Souza no blog À Litfan). Fala sobre uma espécie sensivelmente distinta de um dos mais cantados sentimentos da História da humanidade. Os próximos enredos possuem nos títulos os nomes das personagens que vivem esta sensação à qual estamos condenados. Lembrete: como sabem meus amigos e amigas, meu estilo parece, por vezes pedante, pernóstico. Mas, mesmo que seja, o hermético me seduz irremediavelmente e por isso o uso com tanta frequência. Em tempo, para não fugir a natureza do blog, a estória trata, sim, de criaturas incríveis.


           Nos estertores do desejo, já moribundo, eu insistia. Sua indecisão sinalizava a verdade que meu coração se recusava a aceitar. Eu sabia, como sabia. Uma dor profunda, nascida do mais imperscrutável âmago fazia questão absoluta de me convidar, sem tréguas, à lembrança. Ele já não me pertencia, afastado por minha indiferença de duração sempiterna, até o dia em que já não mais podia suportar. Vês como sou tola! Como fui tola! Estulta o mais possível. Mas isso não o sensibiliza. Por Deus! E como poderia? É tão pouco apenas esta ridícula justificativa. A certeza de ser meu eternamente cegou-me às possibilidades que medram todos os dias. Neste momento ele se esvai aos poucos, mas inevitavelmente.
A força do assédio das experiências novas é terrivelmente sedutora. Seu apelo, praticamente inalienável! Estou sem defesas para os suplícios que já me enamoram. O que serei sem você? Tento cogitar e me perco nas lágrimas que não brotam, intensificando o sofrimento a que estou fadada!                                                            
Séculos de busca incansável. Um coração que clamava por ser encharcado de paixão, inundado de amor imortal, o romântico sentimento que exulta toda a existência, que enleva seu mais infinitesimal detalhe. Escutou, do tempo, a promessa benfazeja do destino guardado. Esta trabalhou como emplastro, aliviando sua sede do arrebatamento.
Sua voz excitou todos os seus sentidos. A textura do timbre injetou uma explosão ardente em seu peito. Há quanto tempo esperou por isto? Sinal empedernido da evidência! O som desta chegava carregado de mensagens que o entorpeciam. Que poder ela detinha! Ele não suportou retardar a decisão e lançou olhar incrustado em volúpia, rubro recrudescido em paixão incomensurável. A virtuose do mais nobre sentimento alastrou-se em sua alma, não esquecendo da carne inseparável! Usou de uma pequena prerrogativa inerente, um jocoso presente da sua descendência, para chamar-lhe a atenção. Ela o nota. Seus olhos encontram os dele. A beleza inicia sua dança, e ele banhou-se neste predicado por um longo tempo. Os passos cumprem seu papel, ela está começando a se preparar. Ele sente o tremor que acompanha a conquista inadiável!                                                                   
Naquela época, o espírito dos românticos arrebatados pela energia invencível que os domina parecia mais impávido. Esta parte da história parecia emprestar mais vigor, um quase insuperável, na luta contra os excessos do mundo que por vezes separa os amantes jurados para o sempre. Como se o numero de opções, ou oportunidades, do passado, exercessem influencia decisiva na tentativa de corromper o amor perene. E quanto mais remoto os tempos já idos, mais facilidade em manter-se fiel às juras. Neste século, todavia, a velocidade das sensações beira o absurdo, para qualquer um. Eles também foram vítimas. Ela, embriagada pelas suas extraordinárias possibilidades, deu inicio a um flerte perigoso com o que este novo mundo oferecia. Uma lascívia não acordada convenceu-a dos presentes à espera, dos prazeres ainda inescrutáveis. Ele não faria parte desta investida, decidiu ela. Seu amor podia, deveria ser preservado. Era possível fazê-lo, sem magoar-lhe. Apenas uma resposta ao tédio que a importunava nas ultimas décadas. Nada que afetasse a aliança afiançada pelo amor jurado há tempos imemoráveis.
Ela estava errada! A ferida aberta, o nervo exposto da lesão irremediável provocada em seu coração o acompanharia até o fim dos seus dias, uma perspectiva insuportável, dada a sua natureza. 
                                                           
É fácil notarmos a mudança. Basta não, deliberadamente, olharmos para o outro lado, evitando aquilo que precisamos resolver o mais rápido possível, para o nosso bem, ou para o nosso mal. Nunca se sabe. E ele era um observador incrível, detalhe amadurecido durante um longo tempo, tantos anos, que nos machuca sabê-los. Esperou-a tomar a iniciativa. Uma paciência alimentada pelo desmesurado amor que sentia e que, paradoxalmente, emprestava combustível perpétuo à sua dor insana. Começou a demonstrar certa contrariedade nas incursões que faziam juntos, uma insatisfação incômoda em seu olhar. Deixava claro, a ela, a arbitrariedade que nadava em seu rosto. Suplicava, assim, por uma confissão redentora. Mas suas súplicas não eram ouvidas. Um pesar atormentado era constante companheiro, mas invisível, ou pior, ignorado, por sua amada.
Encontrou-a ungida de luxúria selvática, numa espécie de quadro moldado por arabescos desdenhosos do sublime sentimento que ele carregava e nutria com todas as suas forças. Ela, em sua forma animalesca, incitada pelo encontro com o liquido rubro-negro, ainda quente, não entende o flagrante nos olhos do amado. A vítrea tristeza alojada em suas órbitas percorre todo o cenário, atingindo a essência que lograva dentro dela, aquela que a fez firmar uma promessa divina, aceita por ele sem ressalvas, pois era ela! Ela, aquela que Crônos lhe sussurrou. Como pôde? Um grito desesperado ecoou por todo, por tudo, enchendo de terror os proxenetas que a acompanhavam. A abóboda celeste estremece, se contorce, abjurando os apelos que irão surgir.                                                                
A morte os apanha no horror mais indesejado. Ele excede-se em virulência para com estes. Não existe economia em sua sanha. Seus golpes estão prenhesbestialismo. Bilioso em todas as perspectivas. Alaridos querem emitir um arrependimento que nunca seria considerado, numa miscelânea confrangida. Não sabiam com quem estavam lidando. Aquele local em instantes se tornaria abiótico. Que a dor reine soberana, assistida pela cólera intolerável que alardeava um barafustar cabal.
Findado o severo tormento, uma cerração pouco densa, como uma bruma, bruxuleia aos seus pés. O sangue pagou um pedaço da dívida construída na traição vil que ela insistiu em perpetrar. O punhal foi entregue à revelia, mas foi. Sempre é. Os estragos são gigantescos, de proporções doídas. O remédio é amargo e custa a fazer efeito, quando sim. Ele olha as mãos, os punhos, as garras, as palmas, toda arquitetura desta anatomia tomada pelo nutriente vermelho que corre nas veias, pelo suco que sustenta sua benemérita existência. Um guerreiro a banzar. O gosto inconfundível do celso liquido agora se faz presente, baixado, já, o calor da violência. Sente escorre-lhe pelos lábios, gotejarem das presas. O local, agora inóspito num caudal encarnado. Ela se aproxima e um rosnado avisa querer certa distância. Antes da fúria, é a dor que aconselha. Ela não sabe, entretanto. Melhor assim. Uma segunda tentativa e o amor imensurável apela mais alto que a fera. Dedos alvos tocam o rosto molhado em densidade pegajosa, agora cabisbaixo. Branduras clamam por resposta. Os olhos, de ambos, umedecem. Ela ergue seu rosto em sua direção e ele admoesta com lágrimas mortiças a escorrerem em abundância. Ela entende, mas não aceita. Inútil. O benjamim de lúcifer em candente abismo insondável.                                                            
Nos estertores do desejo, já moribundo, eu insistia. Sua indecisão sinalizava a verdade que meu coração se recusava a aceitar. Eu sabia, como sabia. Uma dor profunda, nascida do mais imperscrutável âmago fazia questão absoluta de me convidar, sem tréguas, à lembrança. Ele já não me pertencia, afastado por minha indiferença de duração estúpida, até o dia em que já não mais podia suportar. Vês como sou tola, como fui tola. Estulta o mais possível. Mas isso não o sensibiliza, por Deus! E como poderia? É tão pouco apenas esta ridícula justificativa. A certeza de ser meu eternamente cegou-me às possibilidades que medram todos os dias. Neste momento ele se esvai aos poucos, mas inevitavelmente. A força do assédio das experiências novas é terrivelmente sedutora. Seu apelo, inalienável! Estou sem defesas para os suplícios que já me enamoram. O que serei sem você? Tento cogitar e me perco nas lágrimas que não brotam, intensificando o sofrimento a que estou fadada...

1 Resmungos:

Rosa Mattos disse...

Olá, Victor, quanto tempo hein?
Pendante? Pernostico? Que exagero! Quando te li a primeira vez achei o estilo rebuscado, porém requintado, elegante. Até reclamei, lembra? rs

Gosto da linguagem e formato que usas pra se expressar. É questão de o leitor se entregar em cada linha e depois passa a saborear com prazer.

Tive problemas com meu blog zip.net. Excluí os dois e criei outro pelo blogspot. Ainda estou ajustando e aprendendo a mexer. rs

http://contosdarosa.blogspot.com.

Voltarei. Abraços/!!